sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O "PLUS" DA MONARQUIA


 

Um pouco na linha do que escrevi no meu artigo anterior , gostaria de agora sublinhar a importância vital para Portugal, do facto de ser necessária uma transição democrática para uma nova Monarquia Parlamentar.
No artigo anterior falei no facto de ser muito difícil actualmente encontrarmos Estadistas à altura, que dos quais beneficiariam as Instituições Representativas, nomeadamente quando me referi às próximas eleições presidenciais. Mas temos que pensar a Monarquia, muito mais do que uma simples substituição de titulares na Chefia do Estado. Este exercício é absolutamente imprescindível e, naturalmente, aqui na Plataforma de Cidadania Monárquica temos procurado chamar à atenção para a necessidade de fomentar massa crítica quanto a esta questão Institucional concreta, a qual temos que pensar com honestidade e realismo, tendo em consideração a actualidade!

Vamos então por partes:

1. O Poder Soberano: Este poder pertence exclusivamente à Nação, isto é, a todos os Cidadãos Portugueses que chegam à idade legal que lhes permite exercer o seu “trust”, isto é, votar e com este acto, próprio das Democracias, depositar a sua confiança naqueles que irão gerir / legislar pelo bem comum, isto é, pela respublica!

2. A Separação Tripartida dos Poderes: Qualquer Democracia que se preze, não pode ter o poder concentrado numa só pessoa ou numa só classe ou facção ou elite. Assim, é fundamental existirem poderes com vista à organização do Estado. Estes poderes são normalmente o Executivo, o Legislativo e o Judicial, e ambos têm que estar separados. Ao poder executivo, isto é, para executar as leis, cabe ao Governo. Ao poder legislativo cabe a um Parlamento. Finalmente ao Poder Judicial cabe aos Tribunais.

2.1. A Relação dos Poderes entre si: Em Democracia, os Governos têm que responder perante um Parlamento, onde estão todas as correntes, que maioritariamente representam as diversas sensibilidades de uma sociedade, através da existência de Partidos Políticos ou Independentes. Estes, através dos seus Deputados fiscalizam as acções do Governo e este, através do Primeiro-ministro terá que responder pelas decisões que toma em determinadas conjunturas e nas mais diversas áreas da governação. Aos Tribunais cabe o dever de fiscalizar o cumprimento  da Constituição através do Tribunal Constitucional e naturalmente do cumprimento da Lei na verdadeira acepção da palavra.

3. A gestão da República: Segundo vários teóricos o regime mais democrático que existe é a República. Mas o que é que se pode entender por República? Pela origem clássica, o conceito de República, vem do latim Respublica, que significa o bem comum; aquilo que é Comum a todos os Cidadãos e a todos diz respeito. Como falei anteriormente, quem deposita a confiança em representantes eleitos são os Cidadãos, através do voto. Os Eleitos são os, em nome dos Cidadãos, vão legislar e executar as leis, para o bom governo daquilo que é comum precisamente a todos. Actualmente, em Democracia, os Parlamentos têm vários grupos parlamentares e cada um deles representa uma facção, uma ideologia, no fundo, um Partido Político. Aquando das eleições o partido mais votado, forma Governo e este reune-se em Conselho de Ministros liderado por um Primeiro-ministro, que é o responsável máximo por todas as decisões tomadas em nome do Governo e tem que responder precisamente em nome do Governo perante o Parlamento e responder tanto aos elogias como as críticas, seja das bancadas da maioria, seja das bancadas da oposição. Mas é de facto, dentro do quadro de legalidade, que a gestão da República é feita entre um Governo e um Parlamento e como já disse, o Tribunal Constitucional tem que fiscalizar o cumprimento da Constituição, como Lei Fundamental do País. A respublica, o bem Comum de todos os Cidadãos, é gerida por aqueles que estes consideram capazes de fazerem boas leis e tomarem as decisões mais correctas em prol da prosperidade e do progresso.

4. A Chefia de Estado Monárquica: Falei de todos os Orgãos de Soberania, menos um: A Coroa!

Um País como Portugal, a caminho dos seus 900 anos de existência, enquanto Pátria fundada em meados do século XII, com uma única Casa Real que vem desde o Primeiro Rei, Dom Afonso Henriques e com os seus Actuais Representantes e Herdeiros, tem na Monarquia um plus que muitos povos não têm, nem terão: A Dinastia Histórica e Representativa!

a) Dinastia Histórica:  porque, precisamente representativa uma continuidade que atravessou todos os períodos da História de Portugal, desde a Fundação do Reino até à actualidade. Este acumular de experiência Histórica, este Património comum a todos, é absolutamente extraordinário e ilustra uma riqueza única, a qual não podemos fazer de conta que não existe. Uma Pátria que não olha para o seu passado, não consegue, no presente, preparar o futuro. A Dinastia Histórica acompanhou os Portugueses de geração em geração até hoje e tem apenas como único objectivo servir Portugal e os Portugueses e não ser servida!

b) Dinastia Representativa: Sendo uma Dinastia antiga, que tem servido Portugal desde a fundação do Reino, no século XII, tanto no Trono, como no século XX fora dele, por diversas circunstâncias, a verdade é que o amor a Portugal é ilustrativo, na única ambição dos Representantes da Dinastia Histórica, actualmente, Suas Altezas Reais O Senhor Dom Duarte e A Senhora Dona Isabel, Duques de Bragança, que é a de servir. Mas uma Dinastia, uma Família Real, não é só uma homenagem à Tradição do Reino! Neste ponto é absolutamente fundamental os Portugueses percebem qual é o Papel de um Rei, no quadro de uma Democracia, em Monarquia Parlamentar. Em primeiro lugar, os Reis são preparados para o ofício de reinar, desde muito cedo e a partir de uma certa idade vão acompanhando aqueles a quem irão suceder nas mais variadas actividades de representação do próprio Estado, em reuniões e Cimeiras variadas! Em segundo lugar, assumindo o Trono, o Rei tem como missão fundamental cumprir e fazer cumprir a Constituição, pois, o Chefe de Estado tem uma obrigação de dar o exemplo e este vem sempre de cima. Em regime de Monarquia Democrática, o Rei não tem poder político, não toma decisões pessoais – como acontece com os Presidentes da República! É o Rei que se reune semanalmente com o Primeiro-ministro, ou em alguns casos poderá mesmo presidir a um Conselho de Ministros, para tomar parte dos assuntos da Governação do Reino. Mas, numa Democracia com Rei, é o Primeiro-ministro, em Conselho de Ministros, que em nome do Rei, toma decisões, como por exemplo, a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições – normalmente estes actos são apenas formalizados pelos Monarcas reinantes, porque estes, com ou sem poder político, são sempre os Chefes de Estado! Os Reis são independentes de toda e qualquer facção partidária ou ideológica e isentos nas suas acções. Os Reis procuram sempre criar consensos em prol do bem comum. Finalmente, o prestígio para um País, da existência de uma Família Real reinante é um fenómeno de popularidade e de interesse que ultrapassa em larga escala todo e qualquer casal Presidencial. Desde subidas ao Trono, passando por Casamentos Reais, Baptizados Reais, Funerais Reais, todos estes e outros eventos são considerados, nas Monarquias, como eventos históricos que marcaram e marcam gerações, aos quais, obviamente os Cidadãos desses países e também assim o seria em Portugal, como foi no passado, consideram absolutamente relevantes e querem também se juntar muitas vezes às suas Famílias Reais. Recordo-me do Jubileu de Diamente da Rainha Isabel II, recordo-me dos Jubileus da Rainha Margarida II da Dinamarca e do Rei Carlos XVI Gustavo da Suécia!

Conclusões:

Porquê, que então, se poderá dizer que as Monarquias Europeias actuais são autênticas Repúblicas? Porque entende-se que a Democracia funciona em pleno, quando se fala precisamente nos detendores do poder político que são os Cidadãos e que cujo sistema de governo, o Parlamentarismo, permite uma maior fiscalização “de baixo para cima”, isto é, são os Cidadãos que podem pedir a demissão de deputados no Parlamento, por exemplo! Aquando das eleições, os Cidadãos votam em Candidatos de partidos políticos e não só em partidos políticos como acontece em Portugal, isto é, os Cidadãos sabem em quem estão a votar!

Não é por acaso também que se considera que as Monarquias são escolas de Estadistas! É importante sublinhar que a Monarquia, em Democracia, permite estabilidade na Governação, e não é por acaso que muitos ex-Chefes de Governos de vários países fizeram mais do que 2 mandatos.

O quê que Portugal teria a ganhar? Tudo! Por um lado, teríamos um Rei e uma Família Real que representam a continuidade de Portugal, a sua História e a sua Identidade, nomeadamente, na fomentação dos valores nacionais, como o Patriotismo, que nos responsabiliza a todos a fazermos pelo nosso país, não ficando de fora nenhum de nós, e procurarmos unidos fazer do nosso Portugal um País próspero e desenvolvido, pois só assim teremos condições para continuarmos a ser livres! Além disso, o Parlamentarismo é um sistema que obriga a uma maior transparência na representatividade dos orgãos de soberania. A gestão do bem comum, da respublica é feita pelo Governo, através do Primeiro-ministro,  que não pode tomar decisões pessoais, mas sim em Conselho de Ministros. Um Parlamento que tem que ser fiscalizado pelos Cidadãos Eleitores e um Sistema Judicial totalmente independente que tem que fiscalizar pelo cumprimento da Lei.

Mas não podemos cometer o erro de apenas ambicionarmos uma mudança de regime. Não basta dizermos que queremos um Rei. Temos que pensar a Monarquia assim como temos que pensar que País queremos para as próximas gerações. Este é o nosso dever como Povo Soberano. Nenhum Representante do Povo Soberano pode, em nome do Povo tomar a decisão de nunca questionar o regime republicano vigente! Cabe ao Povo Soberano retomar para si a Liberdade de escolha do seu futuro colectivo, em nome das próximas gerações. É pois tempo, de exigirmos o direito democrático à escolha da Monarquia em Referendo e aclamarmos o nosso Rei; POR PORTUGAL! VIVA O REI!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

MISSA DE SUFRÁGIO POR EL-REI D. CARLOS I E PELO PRÍNCIPE REAL D. LUIZ FILIPE - COIMBRA



A Real Associação de Coimbra informa que no próximo dia 1 de Fevereiro (sábado), pelas 11,30 horas, será celebrada na Igreja do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, Missa de Sufrágio por Sua Majestade, El-Rei Dom Carlos I, e Sua Alteza Real, o Príncipe Real Dom Luiz Filipe.


Convidam-se todos os Portugueses a estarem presentes neste piedoso acto em memória do Soberano e do Herdeiro da Coroa de Portugal.

Que Deus Guarde Portugal e a Família Real!

O REI E O POVO

 


 
Entre o Rei e o seu Povo estabelece-se uma relação instantânea como consequência necessária e lógica da afinidade natural. O Rei é uma Instituição catalisadora que faz todos sentirem-se parte de um todo; só que uma entidade Real, porque o Monarca tem a custódia da tradição dos antepassados dos homens e dos costumes da Nação. O Rei não é uma personagem distante enclausurada numa redoma de luxo e privilégios, antes caminha, sem medo, no meio da multidão nunca ignorando as questões maiores como o supremo interesse do Povo.

Hegel, na sua obra de 1820, “Elementos da Filosofia do Direito”, deu uma fundamentação lógica ao papel do Rei: um Monarca constitucional cuja função é personificar o carácter nacional e dar continuidade constitucional em tempos de emergência. Foi essa ideia que se desenvolveu nas monarquias constitucionais na Europa e no Japão. Assim, aos monarcas foi dado o status de "servidores do povo" para reflectir a nova posição, igualitária. El-Rei Dom Manuel II tinha como divisa “Depois de Vós, Nós”, premissa de que o Rei serve primeiro os interesses da Nação: País e Povo.

O papel do Rei é bem diverso do de um político. Eça de Queiroz lembrava no panegírico “A Rainha” dedicado a Dona Amélia que, «No tempo dos nossos velhos reis, ao contrário, todos os educadores de príncipes lhes ensinavam o alto dever real de comunicar docemente com o povo. E D. Aleixo de Menezes, na sua fala e despedida sublime a el-rei Dom Sebastião, lança estas grandes palavras: “o excesso de afabilidade, senhor, não compromete a autoridade do príncipe…»

Olav I, Rei da Noruega, referindo-se ao seu Povo, temerariamente evocava, «Por que deveria eu ter medo? Eu tenho quatro milhões de guarda-costas!»

De facto, o Rei será o intérprete da vontade nacional e protector dos cidadãos da sua Nação, e, o Povo vislumbrará no Rei a inspiração e, por vezes, o seu derradeiro defensor. Como muitas vezes lembrava o Imperador Austro-Húngaro Francisco José I, «A função do Monarca é defender o Povo dos maus políticos.» Sim, de facto, a experiência confirmou o valor da Monarquia como uma fonte de travões e contrapesos contra políticos eleitos que poderiam procurar obter poderes maiores aos atribuídos pela Constituição e, assim, em último caso, como uma ressalva contra a ditadura.

Um Rei é educado para essa função, uma vez que antes de ser o Soberano é o herdeiro presuntivo que é lapidado para traduzir a vontade nacional, sentindo com o Seu Povo, fazendo seus os problemas deste e transmitindo as suas ânsias aos políticos. Sim, esse instrumento de conhecimento do Seu povo não é de somenos importância, pois provoca a confiança recíproca!

Acima de tramas partidárias, independente de um calendário político, o Rei terá a tranquilidade e a legitimidade para actuar como moderador entre as várias facções políticas ou demais grupos da sociedade civil. E o Seu Povo reconhecê-lo-á como o defensor da Nação e o primeiro depositário do património imaterial da mesma.

É isso que o nosso País precisa: um Rei dos e para os Portugueses!



domingo, 26 de janeiro de 2014

1º ANIVERSÁRIO DA TV MONARQUIA PORTUGUESA




A TV Monarquia Portuguesa está de parabéns.

Há exactamente um ano, neste dia, 25 de Janeiro de 2013 nascia este projecto, nascia a TV Monarquia Portuguesa, então denominada de Maria da Fonte TV.

Neste ano, muito se trabalhou, muito se fez, muito de todos nós, desta equipa, foi entregue à Causa Monárquica e os resultados estão à vista de todos. Um tremendo sucesso.

Se há um ano tudo isto não passava de uma utopia, em que poucos acreditavam, neste preciso momento, a fasquia subiu de forma galopante e dizemos mesmo que tudo é já possível.

Conseguimos em menos de um ano, o que à partida estabelecíamos como alcançável em dois, o que não deixa de ser assinalável.

É verdade que muito ainda haverá para fazer e não é menos verdade que nos próximos dias surgirão muitas e significativas novidades, como a mudança da nosso imagem, com um novo brandig, uma nova designação (monarquia.tv), novas parcerias e o anuncio de participação em inúmeras actividades e eventos, alguns deles mesmo com total exclusividade.

Para começar e cumprindo a promessa que fizemos anteriormente, hoje, dia do nosso 1.º aniversário, damos inicio às nossas emissões na rede MEO.
È verdade que apresentamos ainda uma grelha em fase experimental, mas já com a maior percentagem de conteúdos de produção própria, e que, iremos gradualmente melhorar e tornar mais agradável e apetecível de assistir. É uma promessa que fazemos, e, aqueles que nos seguem, já se habituaram a ver as nossas promessas cumpridas.

Prometemos igualmente sempre lutar por um Portugal melhor, através da passagem da mensagem Monárquica e ainda desempenhando um papel activo na defesa, promoção e divulgação de tudo aquilo que é português.

Por ultimo, queremos aqui reiterar o nosso total apoio àquele que é, sem qualquer sombra de dúvida, o legitimo herdeiro do trono de Portugal, SAR O SENHOR DOM DUARTE DE BRAGANÇA. Senhor D. Duarte, a TV Monarquia e a sua equipa está inteiramente ao seu serviço, totalmente ao seu dispor.

VIVA O REI!
VIVA PORTUGAL!

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Os Duques de Bragança visitaram as instalações do Centro Social PMJS



No final da visita, D. Duarte manifestou a necessidade de se apoiar o CSPMJS e afirmou que a “república entrou na bancarrota devido à má gestão, gestão fraudulenta, incompetente e desonesta”.

Apelos à solidariedade das pessoas e apoios estatais marcaram a visita, no dia 18 de Janeiro, de D. Duarte Pio e D. Isabel de Bragança, duques de Bragança, às instalações do Centro Social Padre Manuel Joaquim de Sousa, bem como às obras em curso do futuro lar de idosos da instituição taipense.
Apesar de o próprio D. Duarte ter afirmado que não se pode ficar à espera que “o estado resolva tudo, defendeu, numa curta declaração, que tem de se continuar a apoiar o tipo de instituições que tinha visitado e apelou ainda ao voluntariado e à generosidade das pessoas, referindo ainda a importância da interajuda entre as famílias.

Questionado sobre a situação social que o país atravessa, D. Duarte foi contundente e afirmou que se explica pelo facto de a república ter entrado na bancarrota “devido à má gestão, gestão fraudulenta, incompetente e desonesta”. Evitando comentar a actuação do presidente da República, acabaria por acrescentar que o fundamental seria examinar “como foram gastos e desperdiçados os fundos públicos e como se gastou mais do que aquilo que temos”.

D. Isabel de Bragança, que será embaixatriz de um jantar de apoio ao centro social a realizar a 5 de Abril, mostrou a sua satisfação pelo trabalho que o centro social desenvolve, afirmando que se trata de um exemplo para Portugal, e que seria muito bom que existissem “mais centros como este no país, principalmente no tempo que vivemos, onde as pessoas estão a passar muito mal”. Salientou ainda que as pessoas não se podem limitar a “dizer mal ou que isto não funciona” mas que todos devem, das formas que puderem, “trabalhar para sairmos desta situação”.

Duque de Bragança crítico no referendo à coadopção 

D. Duarte Pio foi ainda confrontado com a aprovação do referendo sobre coadopção e adopção de crianças por casais do mesmo sexo, recentemente aprovado no parlamento. Apesar de salientar que se trata de assunto que precisaria de mais tempo para ser explicado, D. Duarte afirmou que o que se pretende não se confina ao que se quer referendar: “É uma maneira habilidosa de se tentar chegar mais longe. O objetivo de quem propõe isto não é o que dizem, é de ir mais longe. O objectivo é dizer que se trata de um casamento igual aos outros, que podem adoptar crianças como os outros. Isto tem de ser estudado por especialistas. Deve-se perguntar aos especialistas se é bom ou benéfico ser adoptado por um casal de homossexuais e não decidir através de um referendo onde as pessoas podem nem perceber sequer qual é a pergunta.

Fonte: Reflexo Digital

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

CONTOS E LENDAS - EL-REI D. PEDRO I

EL-REI D. PEDRO I
Quadro de Carlos A. Santos

Dos reinados de Portugal, nunca se se suscitou tanto interesse como o do reinado de El-Rei D. Pedro I, cognominado o Justiceiro ou o Cruel, perpetuados nos anais da nossa História pela pena do cronista Fernão Lopes.
Sua majestade cavalgava por todo o seu Reino, sem descanso, para levar a justiça a todos os cantos do País.
O Justiceiro, D. Pedro, castigava sem dó nem piedade, pelas suas mãos ou pelas do carrasco, tanto o clero, como a nobreza como o povo. Tão depressa fazia de um vilão cavaleiro, como de justiçar como vilão um cavaleiro.
Segundo Fernão Lopes, D. Pedro era de elevada estatura e de forte compleição. Era gago, e em momentos de exaltação, aumentava a sua gaguez. Adorado pelo povo, era frequente sair dos paços, pela noite fora, a conviver com a plebe!
O SAÚDOSO El-Rei D. Pedro I fazia cá falta agora! Muitos barõezinhos que por aí pululam deviam sentir a sua justiça!
A história que se segue, tem uns laivos de verdade ou não passa de uma lenda?
Deixo isso ao critério do leitor que faz o favor de me ler.

A CAMISA DO NOIVADO
 
 


I

Assi que bem podem dizer deste rei D. Pedro, que nom saírem em seu tempo certos os ditoos de Solon, filosopho, e doutros, alguns dos quaes disserom, que as Leis e justiça erom como teias de aranha nas quaes os mosquitos pequenos, caindo, são reteudos e morrem em ella, e as moscas grandes e que som mais rijas, jazendo em ellas rompem-as e vão-se.

       Fernão Lopes. Chron. de El-rey D. Pedro, Cap. IX.

Houve tempo em que o monte hoje esquecido de Algouço, na província de Trás-os-Montes, erguia a cabeça soberba acima dos outros lugares. As muralhas de cantaria grossa e as torres quadrangulares do antigo castelo, debruçadas sobre um precipício despenhado, concordavam com a melancolia do sítio e com as sombrias tradições, de que as memórias do povo o entristeciam. Dos altos eirados, como do cimo de um ninho de águias, a vista, relanceando, abraçava toda a campina, mosqueada aqui de arvoredos e soutos, rasa de urzes e charnecas além, e empolada mais adiante em colinas, que ligadas, e mais ou menos suaves, se erguiam até beijarem o cinto de cabeços alpestres, última barreira dos horizontes. Ao sopé da montanha, onde se abria o vale mais fundo, estrepitava uma torrente. Era o Angueira bramindo entalado na bronca penedia do leito. Mais ao longe, na coroa dos cerros, os pinheiros meneavam as copas verde-tristes, e os ciprestes solitários balouçavam ao vento as pontas esguias. Por último, ao largo, já quase onde não enxergavam os olhos, recortavam-se de um lado os topes cinzentos da serra de Seabra na fronteira castelhana, e do outro as cristas dentadas das alturas de Nogueira, toucadas de gelos eternos.
De tarde, quando começava a escurecer, o nevoeiro, trepando das margens do rio em colos desiguais, enroscava-se como fumo nas quebradas, e envolvia numa cortina de vapores os mais elevados cumes. Este véu caprichoso, cujas dobras sacudia a brisa, ora se despregava, deixando entrever confusamente os vultos, ora condensado cerrava tudo em volta do solar.
Afirmavam os velhos que as horas do crepúsculo e de nebrina eram também as horas dos feitiços. Uma princesa encantada junto da fonte de S. João guardava os tesouros enterrado de certo mágico. Linda como as estrelas, a maldade do encantador condenara-a a arrastar-se todo o ano em figura de serpente. Só na véspera do festejado santo, à meia-noite, quando as folias riam mais alegres na aldeia, é que o fado mau se quebrava até ao alvorecer. Mal repicava a sineta do campanário, a moura, banhando-se três vezes na ribeira, e depondo sobre uma penha as escamas luzentes, volvia ao antigo ser, resplandecendo nela a formosura rara de uma beleza admirável.
Assim a tinham visto alguns mais felizes, sentada debaixo dos velhos e copados olmeiros à beira do tanque, meiga, contemplativa, e vestida de branco, desnastrando as tranças com um pente de ouro, e cantando aos espíritos do ar com tão maviosa voz, que cortava o coração de a ouvir.
Acrescentavam ainda, que da aldeia alguém a vira já inclinada sobre o espelho da fonte, caindo-lhe as lágrimas em fio de água. Uma corça da cor da açucena, esbelta, e veloz como uma seta, acompanhava-a. Se àquela hora qualquer lograsse falar à moura antes de tornar à forma de serpente, alcançaria da bela cativa, que era fada, as primeiras três coisas que lhe pedisse; mas os casos ditosos são raros, e em cem anos pelo menos não havia lembrança de nenhum. A corça velava, ao menor ruído batia os pés, e desatava a carreira, e num instante desaparecia tudo, como sonho, sem outro sinal mais, do que certo fervor ligeiro nas águas, e uma leve nebrina por entre as árvores.
II

Nos dias desta verídica história governava el-rei D. Pedro, chamado o Justiceiro, e três anos depois o reino parecia outro. Poderosos e humildes, ricos e pobres, todos eram tratados do mesmo modo, quer punisse, quer premiasse. Os bons sabiam que o rei os amava como filhos, os maus tremiam diante da sua face, porque o castigo de suas mãos feria vingador como ira de Deus, e rápido como a impaciência dos oprimidos. No seu tempo a lei era de um só rosto e a pena não coxeava atrás da culpa. Entre o crime e a expiação não se interpunham anos, promessas, ou favores. Devedor honrado, o príncipe ajustava logo a conta a cada um, e pagava-a imediatamente. Só aos moradores de Algouço, coitados! é que ainda não chegara a boa sombra do justiceiro, mas assim mesmo sentiam sua fé tão viva nele, que nas maiores aflições a voz de todos era sempre: «Valha-nos aqui el-rei D. Pedro!». Por fim valeu, e o caso devia ser escrito com letras de ouro pela pena daquele honrado e singelo cronista Fernão Lopes, mais poeta do que toda uma arcádia, e grande pintor de vultos e de coisas.

Ainda então se aninhava a povoação de Algouço em volta do castelo, construído para a defender, e da igreja, que estendia sobre as campas a sombra misericordiosa dos braços da sua cruz. Por ambas as encostas até à coroa da montanha, onde se erguiam as torres do solar com os engenhos armados nos eirados, e as ameias sempre vigiadas, subiam as casinhas da aldeia, pendurando-se, umas cingidas de verdura, outras negras e arruinadas de velhice, estas mudas e desertas a desabar, aquelas alvas e remoçadas dissimulando a pobreza com os ares quase festivos!! «Deus nos livre de tão mau senhor!» era o voto dos burgueses de Miranda, compadecidos da escravidão dos moradores de Algouço, e ainda não diziam desgraçadamente toda a verdade. Ali o suor de sangue regava os banquetes da sala de armas e as pompas quase régias do rico-homem.

O pranto da viúva e as lágrimas dos órfãos molhavam suas mãos, sempre alçadas contra a miséria dos desditosos para destruir o tecto, que lhes abrigava o berço, e revolver às vezes até o chão sagrado do cemitério onde repousam seus pais, avós e irmãos.
O mordomo trazia de cor os sulcos de cada arado, e o peso de cada rês. A vontade do amo e a cobiça dos servos deixavam mendigos à noite os que tinham amanhecido remediados!
D. Soeiro descendia dos senhores de Biscaia. Naquela raça o sangue nobre confundia-se com a chama infernal do espírito das trevas desde o casamento de Diogo Lopes com a Dama-pé-de-Cabra. Verdadeira, ou fabulosa, a aliança dos altivos barões com demónios tinha sido fértil em crimes. Numa época, em que a lança e a espada cortavam as contendas, calando as leis, e calcando os direitos, os cavaleiros de Algouço excediam os mais ferozes na braveza, e na crueldade ferina. Ver correr prantos, e derramar sangue, para eles era um deleite. Pisar aos pés dos cavalos as searas maduras, ou atassalhar nos dentes das matilhas o rebanho, única riqueza do lavrador, parecia o verdadeiro objecto das estrondosas caçadas, em que talavam campos e vinhas a pretexto de montear lobos e javardos. D. Soeiro foi o último desta família ímpia. Três esposas, em seis anos, haviam passado do leito nupcial para o túmulo, sem nenhuma lhe deixar penhor de tão mal agourada união. Rosas pálidas, a melancolia daqueles muros, desbotando-as em flor, fanava-as logo! O segredo não transpirou dos lábios gelados das vítimas; mas sabia-se que os sorrisos do amor nunca lhes tinham alegrado a vida. Desceram ao sepulcro, tristes e silenciosas como existiam desde o dia em que haviam entrado naquelas sombrias portas. D. Soeiro não soltara um suspiro! Se uma lágrima congelada naquele coração de mármore veio tremer na pálpebra, essa lágrima fundia-se queimada pelo orgulho. O povo acusava-o. A nódoa do homicida estampava-se na fronte maldita. O crime das três esposas fora a esterilidade. O ferro, ou o veneno, rompera o laço conjugal. A sepultura quebrara o vínculo apertado no altar! Era a calúnia? Era verdade? Quem sabe! Mas as noites de Soeiro Lopes podiam espantar os mais ousados.
III
Tinha fama de grande monteiro o castelão. Mal o dia despontava, saltava logo no cavalo, e a galope, por sarças e estevais, por montes e campinas, no meio dos caçadores, entre risos, juras e brados, corria até à noite. Uma tarde, na primavera, levantou-se-lhe um veado quase nas terras de um colono, e a despeito das súplicas do velho, cães e corcéis, salvando valados, e calcando e pateando, arrasaram em minutos o trabalho de meses. Sobre as vozerias, latidos, e relinchos soavam, sem cessar, os gritos do cavaleiro:
- Avante! Sus! Aboca!
Tocavam buzinas, estalavam látegos, o tropel, enovelado, desapareceu atrás da pista. Garcia do Marnel, o dono do campo, fora o melhor besteiro dos sítios. O mais rijo arco dobrava-se, como vime, em suas mãos, e a seta da sua aljava atravessara sempre o alvo. De avós a netos esta robusta e laboriosa raça lançara raízes profundas no solo, remido pelo seu braço. Os mais fundos afectos prendiam-na à terra rota e lavrada com o suor do trabalho. Na choupana do pequeno casal tinham-lhe nascido viçosas as primeiras esperanças, tinham-lhe alvorecido os castos amores da esposa e dos filhos. No altar da igreja haviam sido abençoadas as promessas de mútua ternura; e agora debaixo da cúpula frondosa dos álamos, à sua porta, o avô no inverno dos anos, sentia-se renascer nas graças infantis da neta, mimosa e única vergôntea, que sobrevivia dos ramos decepados pela morte no velho tronco da família. Garcia amava tudo isto com o ardor calado, mas intenso das almas viris, retemperadas pelo infortúnio.
A pobreza honrada nunca lhe curvara a cabeça, nem o peso da enxada lhe desfalecera o braço. A dor, ferindo-o três vezes no mais vivo do coração, a dor mesmo não lhe prostrara o ânimo. A esposa, por tantos anos alegria e conforto de suas fadigas, tinha-o deixado a meio caminho da vida para ir esperá-lo na mansão de paz. Dois filhos, amparo da sua velhice, orgulho da sua alma, ceifados em flor seguiram a mãe, enquanto o ancião desgraçado, só e de joelhos, não via a seu lado no desterro da vida, ermo de consolações, senão a infância frágil e graciosa de Silvaninha, duas vezes filha, porque duas vezes era o sangue do seu sangue. Inclinado sobre três túmulos, e trazendo sempre diante de si as sombras da morte, converteu-se-lhe a ternura, com que amava a neta, em um extremo louco e quase delirante. Só esta saudade, só este amor o prendia ainda ao mundo, mas com tal encanto, que muitas vezes pedira a Deus que lhe dilatasse os dias para não se unir aos que o chamavam do céu, senão depois de a ver mulher e feliz.
Quando Soeiro Lopes lhe pisou aos pés dos cavalos os frutos de um ano, o sangue do velho, remoçado pela ira, pulou nas veias; as faces cavadas coraram de súbito, e os olhos despediram dois relâmpagos. Saindo ao encontro do cavaleiro, a voz e o corpo tremiam, mas não de medo.
Aquele campo era o dote da neta, e só por causa dela é que suportava o peso aborrecido de setenta anos de fadigas.
- Senhor! Senhor! – dizia ele correndo e clamando. – Tendes o atalho da esquerda! Ruim caçada contra um velho e uma donzela!
O rico-homem não respondeu. As matilhas e os cavalos, precipitando-se, partiam à roda dele, envoltos em nuvens de pó, e o aflito lavrador, de pé e coberto, tinha lançado mão das rédeas do corcel.
Um brado rouco denunciou a raiva do senhor. Depois o látego, silvando, cingiu o corpo do velho, enquanto o ginete fogoso empinando-se-lhe ameaçou o peito com as patas.
- Fora! – rugiu o cavaleiro. – Eis a paga do conselho!
Garcia desviou-se quase cego de dor, e Soeiro, cravando as esporas nos ilhais, voou à rédea larga por cima das hortas e searas, bradando:
- Sus! Aboca!
O açoute do infamante não cortou o corpo, cortou a alma ao desgraçado. Recuando para a porta, como o tigre, e medindo a distância com as pupilas inflamadas, pôs os olhos com ânsia no arco e na aljava. Um rugido surdo expirava ao mesmo tempo à flor dos lábios. A vida do homem orgulhoso e mau estava à mercê daquele arco. Tomou-o e encurvando-o ajustou a seta. O que no íntimo peito diziam o desespero e a cólera era medonho. O rosto não o encobria. Ao apontar o tiro a vista ardente elevou-se ao céu. Pedia perdão, ou auxílio?
De repente baixou-a magoada sobre a casinha humilde. Uma voz fresca e melodiosa cantava dentro. Duas lágrimas rebentaram então dos olhos secos do velho; os braços descaíram. Quis vencer-te e resistir, não pôde. O arco fugiu-lhe das mãos, e a boca murmurou:
- Fora matá-la também a ela!
Enxugando depois as pálpebras entregou a Deus o castigo do opressor.
Mas a desgraça entrara no seu campo com Soeiro Lopes.
O mordomo do castelo veio depois, e consumou a ruína. Desde que fora aviltado, Garcia não parecia o mesmo homem. A ferida oculta minava-o. Falecia-lhe a alma e com ela os brios para o trabalho. Os vizinhos, acudindo ao choro da neta, vieram encontra-lo morto debaixo de uma oliveira plantada pelo mais novo dos filhos. A terra, dote da pobre órfã, confiscada, caiu nas mãos de um sobrinho do mordomo, e Silvaninha, sem parentes, e protectores, teria morrido de frio e de fome se lhe não valesse a caridade dos amigos do besteiro. Um deu-lhe a casa e sustento; outro vestia-a; e muitos, cativos de sua gentileza, socorreram-na, cada qual com o que podia. No entanto crescia a donzela em idade e formosura; mas à medida que os anos corriam, o rosto pálido e os olhos verdes entristeciam-se. Muitas vezes deslizavam-se-lhe pelas faces as lágrimas e não as entendia. È que o pão da esmola, mesmo dado com amor, sempre trava na boca do infeliz! Ao declinar o dia, olhando para o tecto da casinha, de que fora deserdada, apertava-se-lhe o coração por modo tal, que tinha pena de viver, e sentia saudades da sepultura, onde o seu avô descansava, onde todos os seus dormiam!
IV
Sete anos eram passados desde a tarde em que os moradores de Algouço tinham lançado sobre o corpo de Garcia de Marnel os últimos punhados de terra. Soeiro Lopes, nesse intervalo, três vezes casado, e outras tantas viúvo, cada vez se havia feito mais áspero e cruel.
Mal raiva a manhã as buzinas acordavam logo as solidões. Assim que a noite se fechava, as frestas pontiagudas da torre de menagem, iluminando-se, reverberavam o  clarão das tochas do festim. Os gritos, as risadas, as blasfémias da alegria ébria espantavam os que vinham perto do castelo. Os vícios do senhor avivaram-se com os anos. Os deleites pereciam-lhe mais doces regados de lágrimas e de sangue. O abutre já não se empolgava só a vida e dos bens dos vilãos; abrasado em ardor impuro cevava a sensualidade na honra das filhas da aldeia. Rindo-se do temor de Deus, arrastava sem piedade pelo lodo de amores infames a inocência das mais formosas e a virtude das mais honestas. Um sorriso, um olhar dele, era como a fascinação do réptil. Por onde passava, as flores mais frescas, e mais puras caíam desmaiadas.
Silvana contava dezasseis anos. Mimosa e esbelta, o cetim das faces realçava a terna palidez, que revestia de tanto enlevo a brandura contemplativa dos olhos verdes e transparentes, onde a alma retratava os mais suaves afectos. O vivo carmim dos lábios abotoando as rosas da boca, redobrava os encantos ao sorriso meigo, tornando irresistível o requebro e a graça virginal da fisionomia namorada. A voz, fresca e melodiosa, insinuando-se no coração, era o seu maior atractivo. Recolhida pela caridade da aldeia, e desvalida, para quem havia de levantar a vista ou a quem podia confiar o segredo que fazia palpitar de esperança, quando se mirava no cristal da fonte? Vê-la e cobiçá-la foi tudo a mesma coisa para o rico homem. Ele, que a um aceno imperioso sujeitava as mais isentas, podia supor acaso que Silvaninha lhe desse um não, fugindo a suas carícias? Mas às primeiras palavras o rubor do pejo incendiou em chamas o rosto da donzela e nas pupilas de esmeralda fuzilou a ira. Soltando as mãos, envergonhada e ofendida, furtou-se às garras do açor. A raiva enlouqueceu o cavaleiro. Um juramento saltou-lhe da boca por entre sorrisos lívidos.
- Não serás esposa sem primeiro seres amante! Pedirás de joelhos o que hoje enjeitas! Sei atalhar os rodeios à corça. Sei onde o golpe fere seguro!
Deus do céu, compadecei-vos de Silvana! Ela mal o escutou. Trémula e sufocada não suspendeu a carreira senão à porta da cabana onde morava a velha Aldonça, conselho e consolação de toda a aldeia. As línguas maldizentes afirmavam que a velha não era decrépita, nem mendiga, mas fada, e que sabia ler nos astros e adivinhar nas águas. Contavam prodígios do seu poder! Alguns chegaram a asseverar até, que ela e a serpente encantada tinham nascido irmãs, e se juntavam em colóquio à meia-noite. Quando a donzela apareceu, Aldonça, sentada em um penedo diante da porta, acabava de espiar a roca; viu-a e sorriu-se. Enrolou depois a estriga, puxou o fio, e à medida que o fuso girava, e que a linha se enrolava, meneava a cabeça, como se estivesse vendo, ou ouvindo, a muito longe dos sentidos coisa do seu gosto.
- Deus vos salve, filha! – exclamou por fim. – Sei o que vos traz assim assustada. O açor cobiçou a rolinha? Havia de ser! Estava escrito lá em cima, e o que há-de acontecer muita força tem. Conta-me tudo. O que te disse? O que lhe respondeste?
Quando Silvana terminou, redarguiu a velha:
- Louvado Deus! Vem perto a hora e o dia. O destino pode mais que o homem. A águia real já a estou vendo voar. Dentro em pouco temos grandes novidades, filha! Apesar de agudas, as garras do açor não hão-de ferir-te. Vai daqui à fonte da moura e dize que sim a quem lá encontrares. Não te demores. Donde se não espera vem o remédio. Hás-de ser feliz!
Ditas estas palavras, abismou-se em tão profundo cismar, que parecia morta. Não quis saber mais a donzela. Voou à fonte com a fé viva dos quinze anos e da esperança. Ao pé do primeiro álamo parou e tremeu. Não vira a serpente, nem a corça encantada, mas vira um mancebo robusto e gentil, filho do mais abastado cavaleiro vilão das cercanias. Porque lhe esmorece a ela de súbito a vermelhidão das faces afrontadas da corrida? Porque lhe bateu o coração no peito tão atropelado? Telo Vasques, o melhor besteiro depois da morte de Garcia do Marnel, era o noivo que as raparigas das cinco aldeias vizinhas disputavam com mais inveja. Debalde! A vista dele não se baixara para nenhuma, nem a sua boca se abrira para dizer uma palavra terna à mais galante. Silvaninha fora a sua primeira e única paixão. Combateu-a e calou-a por muito tempo, com receio dos pais, mas por fim, não se podendo conter, decidiu-se, e veio ao lugar pedir-lhe a mão. Ninguém sabia o segredo do mancebo senão Aldonça, porque dessa nada se escondia. E a donzela?... Tinha-o adivinhado nos olhos que buscavam os seus, e no próprio coração, que, alvoroçado, lhe dissera pela primeira vez o que era amor. Quando parou, Silvana sentira mais, do que vira, que Telo estava ali. Sem forças para se adiantar ou para retroceder, subiu-lhe às faces o rubor em ondas, e a vista não ousou despegar-se do chão. O tremor convulso que a agitava, fazia-lhe arfar o seio.
V
Telo Vasques não estava menos enleado. Corou também, e a viveza natural dos olhos pretos esmoreceu meio ofuscada pela sombra das pestanas. Encobrindo que a esperava, quis saudar Silvana; mas a voz negou-se-lhe, e uma espécie de deslumbramento turvou-lhe a vista. A mão suspensa, a cabeça inclinada, o gesto cheio de timidez retratavam a vontade presa do enlevo sem força para dissimular, e ainda menos para combater. Assim ficaram por minutos. Imóveis, calados, contemplando-se, e falando só com o coração. A felicidade era tão grande, que não achavam termos que a pintassem. Quem encostasse a mão ao peito do robusto besteiro, sentindo-o pulsar agitado, logo conhecia que o amor o fizera seu. Quem escutasse o palpitar ansioso do seio de Silvaninha não precisava perguntar-lhe se também amava!
Em redor deles tudo era paz e serenidade. Por cima o céu puro recortando-se por entre a cúpula frondosa das árvores. Ao lado a água, sussurrando preguiçosa, saltava em arroios mansos, ou sumia-se nas relvas que aveludavam o chão. Mais longe, a pequena levada afundava-se com estrépito pelas fendas musgosas dos penhascos debruçados sobre o vale. Em baixo, no fim da encosta, uma verdadeira alcatifa de hortos, de pomares, e de campos viçosos, contrastando com o arvoredo sombrio, que entristecia ao largo a paisagem. Depois, a perder de vista, a cor árida e melancólica das charnecas desatando-se até aos cabeços da serra, cujos cimos o sol dourava despedindo-se entre nuvens. Uma brisa louca, mas amena, doidejava na campina, ramalhando as folhas, brincando com os arbustos, empolando e acamando as ervas dos prados. Os rouxinóis nas moitas rompiam em trinados os deliciosos gorjeios. A cigarra casava a voz estrídula com o coaxar das rãs. As sombras, delgadas ainda, começavam a fechar-se sobre o vale, enquanto os raios do dia amorteciam a pouco e pouco no viso dos outeiros, escurecendo o fino azul do firmamento e o verde-fresco das árvores e plantas.
Quando a ternura mútua os deixou respirar, a donzela, volvendo em si primeiro, e desabotoando o meigo sorriso, ergueu o dedo em ar de travessa ameaça e disse:
- Vós aqui, Telo! A esta hora, em sítio por onde poucos passam! Que quereis que digam da pobre Silvana, que não tem senão o seu nome?
A voz era queixosa, e não irada. O timbre harmonioso avivou no peito do mancebo o ardor da paixão. Depois os olhos sorriam animados de malícia tão inocente, que Telo leu neles mais do que esperança, leu amor. De repente ficou outro. Pegando-lhe na mão, e beijando-a, a voz soltou-se-lhe, e a vista, cobrando valor na vista dela, tornou-se tão eloquente, tão ávida de ternura, que ela baixou outra vez as pálpebras.
- Silvana! – exclamou arrebatado. – Quis Deus que nos amássemos, e que um não pudesse viver sem o outro. Meus pais consentem. Dás-me o sim?
O júbilo transformou a fisionomia da donzela. Depois o carmim das faces sumiu-se, e as lindas pupilas, um momento radiosas, molhando-se de lágrimas, lançaram sobre o rosto as sombras da mais resignada tristeza. Sem retirar, ou entregar a mão, que o mancebo prendia nas suas, a neta de Garcia do Marnel, esquecido o conselho de Aldonça, respondeu singelamente:
- Telo, não vos direi já o sim; não quero arrepender-me. O filho de Aires Vasques, do mais abastado morador da terra de Miranda, não deve escolher a sua noiva entre as donzelas mais pobres e desvalidas de Algouço. Amo. Porque hei-de nega-lo? Mas pelo muito amor é que receio aceitar. O que há-de trazer em dote a órfã sustentada pela caridade dos vizinhos senão lágrimas e saudades daquele chão, onde dorme sem vingança, porque ninguém lha deu, ou pode dar, o velho que duas vezes foi seu pai, e que por ela morreu de dor? Não, Telo! Não pode ser!
Falando assim, trémula e consternada, mal reprimia o pranto. O mancebo admirava-a silencioso. As lágrimas deslizando-se, os olhos que a dor fazia irresistíveis, e a voz procurando encobrir com dissimulada firmeza a mágoa íntima, por tal modo lhe realçavam a formosura, que o besteiro não sabia se era anjo, ou fada, a que estava adorando ali cativo de mil atractivos. Atraindo-a, depois, com ímpeto, e unindo-a ao peito, ele, o homem forte, o filho de uma raça leal e rude, como o século em que vivia, sentiu rebentar o pranto, e não se envergonhou de o deixar correr.
- A tua vontade, Silvana, será a minha! – disse por fim. – Mas por amor te quero, e não é justo que por amor te perca. O que vale dizer a boca não, se os olhos, mau pesar teu, estão dizendo sim? Dizes que o dote que me trazes é lágrimas e pobrezas? Nunca fui mais rico. Estas lágrimas piedosas da filha prometem venturas ao marido. E a pureza desse coração é o teu maior tesouro. Ontem não podia viver sem ti, hoje morria se te perdesse. Silvana!... Não mo escondas! O senhor tentou-te de amores, e jurou vingar-se dos desprezos? Sossega! Deus será connosco. O meu arco não erra. A seta vai sempre onde a mando!
Não cedeu ainda a donzela, mas Telo não se enganara: o coração desmentia a boca. Afinal deu o sim, cobriu o rosto, e acesa em pejo desapareceu como se toda a aldeia a estivesse vendo. Ficou ajustado que no dia seguinte iria Telo ao solar pedir licença a Soeiro Lopes. Os noivos sem ela não podiam receber-se na igreja do Algouço, e Silvana desejava tanto que seus amores fossem abençoados, onde o tinham sido os de seu pai e seu avô, que o besteiro não ousou contrariá-la. Altos juízos de Deus! Mal previa o orgulhoso descendente dos senhores de Biscaia que por causa dos olhos verdes de uma donzela pagaria todas as culpas da sua geração, todos os crimes da sua vida.
VI
Era domingo. Tudo repousava na aldeia. Sobre a tarde um cavaleiro, correndo a rédea larga, subia a ladeira torcida por entre os penhascos que findava à porta do castelo. Atrás, mas longe, uma vistosa quadrilha de monteiros, de guarda-cós verde e cintos de couro, passou rindo e folgando, enquanto os moços de monte sustinham das trelas as matilhas impacientes, cujos saltos e latidos formavam condigno acompanhamento aos alaridos dos caçadores. No meio do préstito jovial uma azémola conduzia atravessado em duas varas o corpo de um javardo, vítima enorme e cerdosa sacrificada depois de aturada fadiga o renhido combate, segundo atestavam os golpes, com que suas navalhadas presas tinham descosido os mais valentes e fogosos cães.
Soavam as buzinas a brava alegria das florestas, e o tropel ruidoso, trotando, recordava as proezas dos sabujos mais atrevidos, e rezava, entre chufas e galhofas, a oração fúnebre do pingue eremita, que todos haviam corrido sem parar desde a madrugada até ao pôr do sol.
D. Soeiro, que se apartara deles ao pé da fonte da moura, era o único sério e silencioso. Contra o seu costume, a trompa de prata pendia muda, e nem o ardor da carreira, nem as iras do javali, varado pelo seu venábulo, lhe arrancavam os sons festivos, que era sempre o primeiro a levantar. Que mágoa, ou que remorso entristecia o sr. de Algouço? Nas trevas, nas horas atormentadas das noites sem sono, aparecera-lhe a visão terrível, com que na raça de Biscaia a sombra de Diogo Lopes avisava a cabeça da família de estar próximo o dia dos últimos e tardios arrependimentos? Ao pé da fonte apeou-se, e, com a cabeça entre as mãos, alongou a vista até aos montes fronteiros. O olhar vago e perdido dizia que o espírito não se achava ali. De repente rangeram e estalaram os ramos junto dele, e do meio dos loureiros saiu uma figura. Ao ruído, o rico homem levou a mão ao punho da espada, inculcando o sobressalto sem receio. O medo nunca entrara naquele peito inacessível à piedade.
- Quem és? O que buscas? – bradou irado, medindo com os olhos torvos o robusto e esbelto mancebo, que de arco frouxo na mão, e frechas passadas no cinto, se lhe descobria sùbitamente.
Este não se alterou. Vendo perto de si o homem, que tantas lágrimas acusavam, assomou-lhe às faces morenas um leve rubor e as pupilas negras faiscaram duas chispas. Soeiro Lopes apertou com mais força os copos da espada.
- Sou filho de Aires Vasques, o de Miranda, e a vós buscava!
A firmeza do tom e a concisão da resposta desagradaram ao cavaleiro. Brilharam os olhos mais sombrios, e um sorriso mau encrespou-lhe os beiços.
- O que vem pedir o filho de Aires Vasques ao sr. de Algouço, fora do seu castelo, neste lugar deserto?
A ironia salpicava de escárnio as palavras pronunciadas com desprezo.
- Venho dizer-vos – redarguiu o besteiro, áspero e frio – que vive em vossas terras a donzela que há-de ser minha mulher.
- Ah! Só isso?! E é bonita e moça a tua noiva? Por força a conheço então. Como se chama?
Falando assim, o tom e os modos de Soeiro estilavam tal veneno, que as fúrias do ciúme se levantaram no peito do mancebo. Conteve-se, porém, e retorquiu:
- A mais formosa da aldeia. É a Silvana do Marnel.
- A Silvaninha? A pérola de Algouço? Dá-la a um javardo de Miranda?! Pões alto o pensamento, vilão. Muito alto! Manjares de senhor não se dão a servos.
Foi Deus, ou o anjo custódio, que suspendeu o braço a Telo? A mão procurou a seta mais aguda no cinto, e os olhos chamejantes apontaram no peito do rico-homem o lugar do tiro. O cavaleiro percebeu, mas disfarçou. Continuando a pungir o mancebo com mofas, prosseguiu:
- Sabes, Telo, que pelos olhos verdes de Silvaninha dera o meu melhor cavalo e o melhor arnês, e que um beijo daquela boca pagaria o resgate de um barão? Cuida o vilão que eu havia de enterrar na sua pocilga a rosa dos nossos sítios?
- Senhor! – bradou o besteiro, trémulo de cólera e de ciúme.
- Fora! – exclamou Soeiro Lopes, metendo o pé no estribo e sacudindo o látego no ar. – Arreda! – ajuntou vendo-o adiantar direito e pálido, com mil ameaças nos olhos e no gesto. – Arreda, ou por meu bisavô te juro, que tantas noites dormirás na cisterna do meu castelo, que de lá te arranquem cego e doido!
- Veremos! – articulou o besteiro, retesando o arco. – Só Deus sabe onde vós dormireis hoje!
O cavaleiro já tinha cravado esporas no corcel, e começara a levantar o galope, quando lhe chegaram aos ouvidos estas palavras. Escutando-as para o cavalo de repente, e voltando rijo sobre Telo, sem baixar a vista sobre ele, disse-lhe rindo afrontosamente:
- Vilão! Não hás-de ir queixoso, olha bem. No dia em que Silvana tecer de fios de urtigas, nascidas na sepultura do avô, duas camisas para mim, dou licença que se chame tua mulher. É uma joia por um ceitil! Uma das camisas será o meu brinde de noivado, a outra desejo-a para me enterrar com ela no dia seguinte. Até lá que não vos torne a ver a ambos!
A esperança acabou de falecer no peito ao mancebo. Fez-se branco, fugiu-lhe a luz da vista, e sentiu-se tão prostrado, como se o sangue se lhe esvaísse todo. Quis falar e correr, mas os pés arraigavam-se ao chão. A mão inerte não se erguia. A dor imensa tinha-lhe quase suspendido a vida. Quando volveu a si para olhar em roda, avistou ao longe na planície o vulto do cavaleiro maldito, e pareceu-lhe ouvir estalar ainda as risadas do seu escárnio. Telo elevou então ao céu a vista toldada de lágrimas e caiu em um cismar profundo. Desceu a noite sem ele dar por si; soprou o vento da serra nas árvores sem ele o sentir; e as primeiras gotas de chuva, núncias da tempestade, orvalharam-lhe a cabeça nua, sem o despertarem da amargura. Ao ribombo dos trovões é que acordou, e que principiou a afastar-se com passos vagarosos do sítio onde o amor cercado de ilusões lhe sorrira alegre, e onde deixava calcadas e desfeitas as melhores esperanças da existência.
VI

- O açor encontrará a águia. Sinto-a já voar! Não chores, Silvana, serás feliz. Diz-to quem o sabe! Telo!... A frecha do teu arco pode descansar na aljava. Esta noite, à meia-noite, ide ambos ao cemitério da igreja. Ajoelhai e rezai sobre a sepultura de Garcia. Como as urtigas crescem e estão nela viçosas! Quando sair o luar, Silvaninha, colhe-as a duas e duas, e traze-mas no regaço à fonte da Moura. Véspera de S. João há-de torcer-se o fio. As duas camisas não hão-de faltar. A semana que vem será a do noivado e a do enterro. Ouvis dobrar o sino? A águia não tarda. Enxugai os olhos.
E a velha Aldonça, dizendo isto, ria-se com aquele ar que fazia na feiticeira a amiga de todos os aflitos.
D. Soeiro pusera por condição, que só daria o sim, se a donzela lhe fiasse e tecesse de urtigas da sepultura do avô duas camisas.
- Queres acompanhar-me, Telo? – atalhou a donzela suspirando.
- Porque não fugimos nós? – acudiu ele a meia voz.
- Porque ninguém foge à sorte! – tornou a velha, erguendo-se e sustendo a mão alva e breve de Silvana entre as suas. – Não vos demoreis. À meia-noite, ao romper da lua, todos três na fonte da Moura!
Era já escuro, e as estrelas começavam a cintilar. Suspirava a viração por entre as folhas das árvores, que no cemitério cobriam de sombra as sepulturas. As relvas altas ensurdeciam os passos. A rosa silvestre entrelaçava-se com as verbenas e com os goivos. Ao lado da igreja, entre rosmaninhos, erguia-se uma cruz de pau; tinha entalhado um arco no topo. Ali repousava de setenta anos de idade e de fadigas o avô da donzela. Segundo afirmara Aldonça, uma seara de urtigas vestia o chão. Como o pranto corre pelas faces de Silvana ajoelhada! Como a oração sobe pura e fervorosa de seus lábios ao regaço dos anjos, que vão depor aos pés do Senhor! Mais afastado, Telo, também de joelhos, orava com ardor; mas aquele peito, menos brando, mistura com as preces vozes de vingança. Por fim levantou-se a donzela, e beijando a terra onde o pó dos que amara se volvera ao pó, principiou a cumprir as ordens de Aldonça. A duas e duas foi apanhando as urtigas. Quando acabava chispou no outeiro mais próximo a labareda da primeira fogueira, e soou na voz de bronze do sino o primeiro repique. A lua rompia detrás da serra, e o seu clarão branco alumiava toda a campina. Era a hora aprazada. O mancebo deu a mão a Silvana. Tinham ambos tantas coisas dentro de alma, que nenhum falou em todo o caminho.
Quando chegaram não viram senão uma serpente, fugindo por cima dos penhascos, uma corsa branca pulando por entre as árvores. A velha Aldonça apareceu de repente ao pé da fonte, e acenou-lhes. Recebendo das mãos da donzela as três regaçadas de urtigas, banhou-as outras tantas vezes na água encantada, pronunciando algumas palavras a meia voz. Passados minutos tirou-as do tanque reduzidas a fêveras finas, como o fio que tece a aranha. Três dias decorreram. Em todos eles não cessou de girar o fuso da velha.
No quarto dia dobou-se a linha; no quinto meteram-se as meadas no tear.
Quando a semana pendia só de poucas horas, Soeiro Lopes passou a cavalo pela choupana, olhou, e viu Aldonça à porta, cosendo com Silvana uma tela tão branca e transparente, que deslumbrava.
- Guarde-vos Deus! – disse detendo-se. – Que estais cosendo com tanta pressa?
E o cavaleiro não tirava a vista dos dedos afilados da donzela que voavam sobre a costura.
- Estamos cumprindo um voto! – redarguiu a velha, sem levantar a cabeça. – Aquela é a camisa do noivado, esta é a camisa do enterro. Urtigas do cemitério nos deram o fio, e boas fadas nos teceram o pano. Em três dias estarão acabadas e em três dias veremos também a noiva no altar e o morto no caixão.
Ouvindo-a, o rico-homem mudou de cor e largou as rédeas ao cavalo. A velha, vendo-o correr, exclamou, meneando a cabeça:
- Corre! Que mais corre o destino! Ao que há-de ser ninguém escapa!
VIII
Os sinos do presbitério repicaram depois da missa. O povo acotovela-se à saída do estreito portal, e mais de um moço airoso, de rosto bronzeado, distrai a vista furtiva e faz corar de júbilo a donzela, cujos olhos cheios de reticências recordam os juramentos da véspera. O ruído dos pés, o borborinho e os alaridos das crianças, saltando pelo adro, animavam de ar festivo a cena popular. Enquanto o Reitor, curvo e triste, se encaminha devagar para a sua morada, estendendo a bênção pelos aldeões, Silvana, sempre pálida, ampara no braço delicado o corpo de Aldonça. Os vilãos desbarretam-se diante delas, como diante do pastor; as mulheres acodem a saudá-las; e os rapazes, suspendendo as travessuras, tomam-nas por intercessoras de suas petições. Encostado a uma oliveira antiga, Telo, de braços cruzados, e com o arco a tiracolo, não despegava a vista namorada da neta de Garcia.
Mas antes das duas trilharem o sítio onde ele as estava esperando, um homem de estatura elevada, semblante jovial, e gestos impetuosos, apressando o passo, adianta-se, e chega primeiro. É simples o seu trajo. Guarda-cós de ipre verde desenha o corpo robusto, e a monteira do mesmo estofo, sem plumas, assenta com desgarre fragueiro sobre os cabelos pretos, cujos anéis se debruçavam sobre o cabeção da gola. Era de vilão o vestido, mas o garbo e o porte inculcavam condição mais nobre. Nas pupilas inquietas, e por vezes desvairadas, retratava-se a índole ardente, pronta na ira, fácil nos arrebatamentos.
As sobrancelhas, densas e arqueadas, a nuvem que tolda a espaços a serenidade da fisionomia, a par da tristeza, que lhe sobe em ondas rápidas ao semblante, denunciando saudades íntimas e incuráveis, avivavam as feições de um carácter afeito a dominar, de um coração ferido de golpe irreparável, de uma razão que no combate das paixões nem sempre há-de conservar-se lúcida, resultado de passados sofrimentos.
Afagando com a mão direita as compridas barbas, e consertando com a esquerda o cinto, de que pende a adaga e uma trompa, este homem, que não pode contar ainda quarenta anos, e que entrara na igreja sem nenhum dos fiéis se lembrar de o ter visto nunca, começou à saída a falar com uns e com outros, fazendo perguntas aos mais velhos. Rompendo depois por entre o povo veio colocar-se no sítio, onde o descobrimos diante de Aldonça e Silvana, tão próximo de Telo, que este não perdeu palavra do que disse. Sem saber porquê, o besteiro, de ordinário cioso e assomado, em lugar de se afrontar, estimou quase a ousadia do monteiro. Parecia que um pressentimento oculto lhe insinuava que se decidia neste momento a sua sorte. Era tão grande nele a tranquilidade de ânimo, como se a noiva adorada estivesse debaixo da protecção daquele que duas vezes chamara pai. A velha Aldonça, apenas divisara o hóspede, exclamou como rejuvenescida de repente:
- Filha! Não to afirmei? A águia real saiu do ninho. A hora vem perto. Ouve o que te disser, obedece ao que te mandar, suceda o que suceder. Muita fé em Deus e na justiça de el-rei D. Pedro.
- Não é a fé que me falta – redarguiu melancólica a donzela – é a esperança, mãe… El-rei está longe e tão alto, que não podem vencer decerto metade do caminho as queixas da órfã.
- Quem sabe, donzela? – atalhou o monteiro, adiantando-se, e admirando a formosura de Silvana.
Pegando-lhe na mão, ajuntou:
- El-rei D. Pedro, filha, vê e ouve de longe. Conta-me tuas mágoas.
Falando assim, o tom da voz era brando. Telo, que o contemplava, sentiu renascer a esperança, e insensìvelmente sossegou do maior cuidado. Ora pálida, ora corada, a neta de Garcia narrava no entanto a morte dolorosa do avô, as lástimas da sua infância, e os amores infames que a perseguiam. As palavras pintavam a sua alma. Mais compadecida, do que vingativa, procurava atenuar as crueldades do senhor. Quando terminou, o desconhecido, sorrindo-se, e soltando-lhe a mão, disse:
- Descansai! Está perto el-rei D. Pedro. É como se vos ouvisse. Mandai a Soeiro Lopes a camisa da mortalha, não a pediu debalde! Se o cavaleiro for desleal, ou se vos quiser tirar por força, enviai-me este sinal. Deus e el-rei serão convosco!
Ao mesmo tempo entregou-lhe a trompa de prata e virando-se para Telo, acrescentava:
- É o vosso noivo?... Merece-vos! Escolheste bem!... Não coreis, Silvana! Se o besteiro for o que mostra, em pouco há-de falar-se dele em Miranda. Adeus! Não vos esqueça!... O primeiro perigo, um recado e o sinal. O mais fica para mim.
Dito isto o monteiro sumiu-se por entre as árvores, e Telo estava aos pés da noiva, que Aldonça animava, anunciando-lhe próximo o termo de seus pesares.
IX
Quando Telo, ao cair da tarde do outro dia, trepava a pé a ladeira do castelo de Algouço, vinha descendo o mordomo, seguido de homens de armas escolhidos. O mordomo era o cego executor da vontade de Soeiro Lopes; alma negra do senhor, onde alcançara com o braço deixara sempre vestígios dolorosos. Passando pelo besteiro de Miranda, que o aborrecia, o vílico (era o seu título naquele tempo), não pôde conter o sorriso, rosnando por entre dentes: quantos vão que não voltarão! O noivo de Silvana desprezou o riso, e continuou o caminho; mas à porta despediram-no àsperamente, respondendo que Sua Mercê repousava, e que ninguém o despertaria para dar audiência a um vilão. A princípio Telo pôde sopear a ira; mas pouco e pouco a altercação irritou-o e levantou a voz. Soeiro Lopes assomou de repente à porta. Inteirado do motivo da disputa, virou-se para o besteiro e perguntou:
- A que vens aqui?
- Trazer o que mandaste e pedir o cumprimento da promessa! – redarguiu ele friamente.
O senhor empalideceu. Um estremecimento, que não soube vencer, sacudiu-lhe os membros. Lembrou-se da tela alvíssima e transparente, que vira na choupana de Aldonça, e tremeu pela primeira vez da sua vida. Depressa se recobrou e, medindo o mancebo com indizível escárnio, replicou:
- Pedi-te duas camisas fiadas e tecidas com os fios das urtigas da sepultura de Garcia, uma para o teu noivado, outra para a minha mortalha. Palavra de cavaleiro não quebra! Se cumpriste, não hei-de faltar. As camisas?!
- Ei-las! – acudiu o besteiro. – Urtigas deram o fio e fadas teceram o pano.
Era o mesmo que já lhe respondera Aldonça. A maravilhosa tela, que o noivo de Silvana desdobrou diante de seus olhos, na finura admirável bem mostrava não ser obra de mãos humanas. Pegando na mortalha, D. Soeiro tremia. Sobre o peito, em letras cor de sangue, viu as iniciais do seu nome e pondo o estofo contra a luz, retrataram-se-lhe as feições das três esposas que tinham passado ao túmulo do seu leito.
- Bem! – exclamou. – Silvana é tua se a achares. Quanto à mortalha… Veremos esta noite quem a veste!
Não esperou por mais o besteiro, e partiu, apressando o passo, caminho da choupana de Aldonça. Um pressentimento vago advertia-o de perigo incerto. A tristeza oprimia-lhe o peito; e todavia, a boa nova, que levava, devia alegrá-lo. A noite fechou-se escura. O tempo tinha mudado. Rugindo no pinhal o vento arrancava por entre as ramas das árvores gemidos lúgubres. No céu apagavam-se as estrelas umas após outras debaixo do pesado toldo de nuvens, e a lua encobria-se de todo por cima do último outeiro. Sem saber porquê, sentiu-se Telo desalentado. Ele, o melhor caminheiro dos arredores, o besteiro mais destro dos contornos, deu por si mais de uma vez arrastando os passos e tremendo. Quando chegou à choupana, achou a casa erma e a porta arrombada, e acabou de crer que os presságios não mentem. Bastava olhar para dentro para adivinhar uma cena violenta. A lâmpada ardia ainda junto do lar, e a luz mortiça deixava ver os escanhos partidos, os vasos de barro pisados, as arcas espedaçadas. O pobre catre de Aldonça, despido de roupas, jazia em um feixe. O mancebo parou, e debalde quis ligar ideias. O golpe inopinado tinha-lhe quebrado as forças. Nem o ânimo, nem a razão se prestavam a ajudá-lo.
Fora rapto? Fora vingança mais atroz? A mudez da cabana não respondia! Saltaram-lhe então as lágrimas, e a dor foi tão penetrante que, a não se encostar, caíra desfalecido. Ocorreram-lhe as palavras de Soeiro Lopes, e percebeu-as tarde. Silvana tinha sido roubada pelos servos do castelo, e àquela hora entrava talvez as portas do Alcácer, que para ela eram as portas do sepulcro. É tua se a achares! – dissera o roubador. A quem iria Telo pedir justiça? Lutando com a agonia sentiu que ia enlouquecer. Mas, louco, o que restava à donzela senão a morte depois da infâmia? No auge da desesperação, erguendo as mãos, bradou atribulado:
- Senhor! A vingança é mais vossa, do que minha! Não embainheis a espada da justiça!
No meio destas vozes pousou-lhe de leve a mão de uma mulher no ombro. Olhou. Viu Aldonça. Um sinal imperioso atalhou em seus lábios o grito que iam soltar. Guiando-o calada, a protectora de seus amores chegou a um lugar deserto, e apontando para um cavalo ajaezado, preso ao tronco de uma árvore, disse-lhe ràpidamente:
- Monta!
O besteiro obedeceu. Entregando-lhe então a trompa de prata, a velha ajuntou:
- O mordomo de Soeiro Lopes entrou aqui e leva roubada a tua noiva. Corre, que por tua felicidade corres, e não pares senão na vila de Miranda. Busca os paços do conde e apeia-te. Se te perguntarem quem és, dize que procuras o senhor. Já o viste. É o monteiro desta manhã. Dá-lhe a trompa, conta-lhe o sucedido e faze o que te mandar. Antes de sol nado estaremos todos juntos outra vez. As duas camisas terão cumprido o seu fado.
O mancebo, atónito, viu-a desaparecer, e largando as rédeas, partiu direito à vila.
X
Como o Douro vai fundo e impetuoso! Como se arremessa irado contra os penedos do seu leito! Que trovões rebramam as águas despenhadas em cascatas contra as penhas, que lhe oprimem a fúria corrente! Como a noite se cobre de luto quase de repente de minuto para minuto! Aos bramidos do vento responde o estampido longínquo da tempestade. Os relâmpagos fuzilam sobre as iminências.
Lá em cima, nos penhascos fragosos, que vila é aquela, cujas torres negras estrelam vivas luzes pelas frestas pontiagudas? Seguindo a margem do rio, Telo Vasques não sente fadiga; o brioso corcel devora a distância. Batia a hora de se alçarem as levadiças, quando o mancebo atravessa pontes e estradas, enfia ruas e vilas, e pára no terreiro, defronte dos paços do conde e da torre de menagem. Apeia-se, e sobe os degraus a dois e dois até ao portal da primeira sala. Os guardas intentam detê-lo; mas sem voltar a cabeça, e continuando, responde:
- Busco o senhor.
Ninguém o suspende. De corredor em corredor, de aposento em aposento, chega à sala de armas. Entre os cavaleiros, que passeiam, divisa o monteiro desconhecido com o mesmo guarda-cós ainda. Grossas tochas em anéis de ferro iluminavam a vasta quadra. Corpos de armas brunidas, achas, montantes, lanças a adagas entrelaçadas em caprichosos ornatos enfeitam as colunas, cujos capitéis lavrados sustentam os fechos da abóbada. O monteiro, apercebendo Telo, encaminhou-se para ele. O mancebo vinha tão sufocado, que pôde apenas dobrar o joelho e ofereceu-lhe a trompa. Foi preciso que ele sorrisse para o besteiro narrar o sucesso, que o trazia àquela hora. Concluindo, o moço ergueu as mãos, e com a vista inflamada bradou:
- Levai-me aos pés de el-rei D. Pedro. Dizem que ele não conhece grandes, nem pequenos. A donzela, que roubaram, é pura e santa como a mais pura e nobre de vossas filhas. Não deixeis sem castigo o rico-homem por ela ter nascido no berço de um vilão!
À medida que o besteiro falava, a fisionomia do desconhecido mudava de aspecto. Os olhos pretos dilatados chamejavam, e o semblante, rosado e jovial, empalidecia, torvo de severidade. Arquejava-lhe o peito. O gesto infundia medo até nos que se achavam distantes. Quando Telo pôs termo a suas queixas, e levantou a vista, recuou assustado. A expressão dos olhos do seu protector era terrível. Ensanguentados e delirantes mais se assemelhavam às pupilas encadeadas do tigre, do que a olhar humano. A sua voz cheia, mas presa, gaguejando, falava tão convulsa, que pouco se entendia. Adiantando-se, o desconhecido clamou em grandes brados:
- Lourenço Gonçalves! Acudi! Um rico-homem furtou a mais linda de minhas filhas!
O brado, e a imensa cólera, revelam tudo ao mancebo. Lourenço Gonçalves era o corregedor da corte. Ninguém ousaria chamá-lo assim, senão el-rei. Telo prostrou-se cheio de esperança.
- Segue-me! Afonso Madeira! O meu cavalo enfreado à porta! A minha capelina de aço. Gonçalo Vasques de Góis, escrivão da Paridade! Chamai os desembargadores, relatai-lhes o feito, e lavrai a sentença. Por alma de Inês de Castro!... Pelo seu amor! – murmurou mais baixo. – Antes de nascer o sol haverá um criminoso de menos no meu reino, e mais uma justiça de minhas mãos no livro das suas crónicas!
Falando assim enlaçava a capelina, calçava as luvas de gamo, e com o açoute cingido, desprendia a acha de armas mais pesada.
O besteiro seguiu sem proferir palavra. Os cavaleiros montavam, e uns após outros galoparam para o alcançar. El-rei ia deixando atrás do cavalo o próprio Telo Vasques, e cego de ira metia-se pelas terras de Algouço. Por cima desta vertiginosa carreira a chuva caía em torrentes. A procela abria os céus em clarões lívidos, desarraigando as árvores anosas. Quando D. Pedro assomava diante da porta do castelo, um vulto surgiu, que tomou-lhe as rédeas, convidando-o a apear-se. De um salto estava em terra e levantando a cabeça via as frestas da torre iluminadas. O vulto travou-lhe do braço, e disse:
- É ali!
- Vamos! – redarguiu o príncipe.
E seguiu-o sem desconfiança.
Uma entrada falsa, além do fosso, cedeu à chave e ao impulso.
- Ide agora e Deus seja convosco! – disse a mesma voz.
Ouvindo vozes e risadas no andar superior, o amante de Inês de Castro subiu. No topo da escada de caracol, a cena que se lhe representou excitou-lhe ainda mais a cólera. Perderia o terror salutar do nome de Justiceiro se perdoasse aquele crime.
Era espaçoso o aposento. Um lampadário alumiava parte dele; o resto mergulhava-se em profunda escuridão. No centro da sala, em um leito, com as mãos ligadas, jazia Silvaninha. Duas voltas de lenço sobre a boca até os ais lhe sufocavam! Só os olhos, os lindos olhos, banhados em lágrimas pediam a Deus a morte, remédio extremo da infâmia. Soeiro Lopes, defronte, sorria-se medindo com a vista a queda lenta da areia duma ampulheta. A seu lado o vílico silencioso corria os dados sobre a mesa. A tela da mortalha, fiada e tecida com as urtigas do túmulo, estava nas mãos do cavaleiro, e suas palavras, irónicas como punhais, atravessavam o peito da infeliz. Estranho ao remorso, o neto dos senhores de Biscaia cevava na formosura cativa o furor dos zelos.
- Porque choras, Silvana? Dera ontem o melhor arnês e o melhor cavalo por um sorrir de teus olhos. Pedi-te amor e respondeste não. A tua prenda foi esta mortalha! Que te acudam agora as fadas, que a teceram, e os anjos por que chamavas! Brada pelo besteiro vilão, que preferiste ao rico-homem! Grita por el-rei D. Pedro! Por forte que seja o seu braço, as portas chapeadas deste castelo ainda são mais fortes. Em esta areia, que está por instantes, caindo toda…
Faltou-lhe a voz. A mão erguida do vílico deixou também rodar o último dado. Ao limiar estava el-rei D. Pedro, e nos olhos dele brilhava um clarão terrível. A pesada acha reluzia em suas mãos.
- Traidor! – bradou o príncipe. – Mentes! O brado de D. Pedro quebra e rompe todas as portas. Vais ver… Vilão! – ajuntou falando ao vílico. – Solta as mãos e a boca a essa donzela. Ninguém se mova! Soeiro Lopes, conta bem os graus de areia da tua ampulheta. É o tempo que te dou. Vais comparecer na presença de Deus!
O orgulho indómito do cavaleiro não cedeu. Empunhando a adaga, e posto que pálido, sempre firme e seguro, voltou-se para D. Pedro e redarguiu:
- Quem dá aqui ordens e ameaça? O verdugo de Pedro Coelho e de Álvares Gonçalves? O rei carrasco, falso à sua alma e à alma de seu pai? Imaginas que farei como os outros cavaleiros? Estou no meu solar, e quem entra de noite à má fé chamo-lhe inimigo. Vílico! Aperta os laços da cativa. No alto e no baixo, irado e pagado, não entrego o castelo senão a Deus. A mim, homens de armas!
- Deus é justo! – clamou el-rei, cuja fúria não conhecia limites. – O matador de três mulheres levanta-se contra o seu rei. O perseguidor cruel de donzelas nega-me o preito e menagem. Bem! Morrerás como um vilão às mãos dos teus vilãos. Não mancho em tal sangue o ferro da minha acha. Vilãos! – bradou imperioso aos servos do senhor que tinham acudido. – Sou D. Pedro! Sou o rei! Esse que aí está, rebelde o traidor, prendei-mo enquanto os meus não chegam!
A presença e a voz do filho de Afonso IV infundia terror. Os homens de armas temiam, mas não amavam Soeiro Lopes. A ordem foi cumprida. Depois de curta e desesperada resistência, o cavaleiro ficou à mercê de el-rei.
- Passai um laço na cadeia do lampadário, ponde um escanho para ele subir, e cingi-lhe o nó na garganta! – prosseguiu o soberano indignado.
- Sou rico-homem por foro de Espanha. A afronta da morte vil cairá sobre vós e sobre todos os filhos de algo. Pedir-te-ão contas dela, verdugo! – gritou o cavaleiro estorcendo-se.
- A Deus as darei, e a mais ninguém! O desleal que violenta donzelas não é cavaleiro. Quebro-te a espada e o foro com o meu ceptro.
Momentos depois, D. Soeiro estava em cima do escanho, e o vílico enrolava-lhe o laço. Comovida e trémula, Silvana lançou-se suplicante aos pés do rei. Debalde! D. Pedro, desviando-se, perguntou ao paciente:
- Não pedes perdão a Deus e ao rei?
- Não!
O pé do príncipe tombou o escanho e a morte cortou as últimas palavras do cavaleiro.
XI
A tropeada de muitos cavalos, soando a par do alarido e vozes do castelo, anunciou à aldeia alvoroçada a vinda do monarca. Telo Vasques aparecia à porta quando Soeiro Lopes expirava.
- Besteiro! Por teus olhos vês que me não chamam em vão o Justiceiro. Corrias como noivo e como esposo… apesar disso cheguei primeiro! A justiça do rei ainda andou mais veloz do que o amor!
Horas depois, a camisa do enterro servia de mortalha de Soeiro na capela, e os noivos recebiam a bênção nupcial, tendo el-rei D. Pedro por seu padrinho.
Falou-se muito no besteiro de Miranda, mas o que não esqueceu nunca foi a justiça que fizera em Algouço a severidade do monarca.
O castelo devolveu-se à coroa, e parece que fora doado depois ao primogénito de Telo e de Silvana. Pelo menos assim se disse, e se foi verdade ou fábula, não se sabe.
El-rei D. Pedro era tão capaz de fazer cavaleiro um vilão,
como de justiçar como vilão um cavaleiro.
Contos e Lendas por Rebelo da Silva
Edição revista pela de 1873
Edição de 1955 da Livraria Civilização Editora - Porto - Portugal
*++Fr. João Duarte - Grande Oficial/Comendador Delegado da Comendadoria Stª. Maria do Castelo de Castelo Branco.