terça-feira, 15 de agosto de 2017

- AVE MARIA DI SCHUBERT - MARIA CALLAS -

Assunção da Virgem Maria

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Hoje, solenemente, celebramos o facto ocorrido na vida de Maria 
de Nazaré, proclamado como dogma de fé, ou seja, uma verdade 
doutrinal, pois tem tudo a ver com o mistério da nossa salvação. 
Assim definiu pelo Papa Pio XII em 1950 através da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus: “A Imaculada Mãe de Deus, a 
sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre foi assunta 
em corpo e alma à glória celestial.”
Antes, esta celebração, tanto para a Igreja do Oriente como para 
o Ocidente, chamava-se “Dormição”, porque foi sonho de amor. Até 
que se chegou ao de “Assunção de Nossa Senhora ao Céu”, isto 
significa que o Senhor reconheceu e recompensou com antecipada 
glorificação todos os méritos da Mãe, principalmente alcançados 
em meio às aceitações e oferecimentos das dores.
Maria contava com 50 anos quando Jesus subiu ao Céu. Tinha 
sofrido muito: as dúvidas do seu esposo, o abandono e pobreza 
de Belém, o desterro do Egipto, a perda prematura do Filho, a 
separação no princípio do ministério público de Jesus, o ódio e 
perseguição das autoridades, a Paixão, o Calvário, a morte do Filho 
e, embora tanto sofrimento, São Bernardo e São Francisco de 
Sales é quem nos aponta o amor pelo Filho que havia partido como 
motivo de sua morte.
É probabilíssima, e hoje bastante comum, a crença de a Santíssima 
Virgem ter morrido antes que se realizasse a dispersão dos Apóstolos e a perseguição de Herodes Agripa, no ano 42 ou 44. Teria então uns 
60 anos de idade. A tradição antiga, tanto escrita como arqueológica, 
localiza a sua morte no Monte Sião, na mesma casa em que seu 
Filho celebrara os mistérios da Eucaristia e, em seguida, tinha 
descido o Espírito Santo sobre os Apóstolos.
Esta a fé universal na Igreja desde tempos remotíssimos. A Virgem Maria ressuscitou, como Jesus, pois sua alma imortal uniu-se ao corpo antes da corrupção tocar naquela carne virginal, que nunca tinha experimentado 
o pecado. Ressuscitou, mas não ficou na terra e sim imediatamente 
foi levantada ou tomada pelos anjos e colocada no palácio real da 
glória. Não subiu ao Céu, como fez Jesus, com a sua própria virtude 
e poder, mas foi erguida por graça e privilégio, que Deus lhe concedeu 
como a Virgem antes do parto, no parto e depois do parto, como a 
Mãe de Deus.
Nossa Senhora da Assunção, rogai por nós!

Fonte: Canção Nova

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A Alma e a Gente - I #25 - D.Afonso, O Que Foi Gafo (Alcácer do Sal) - 0...

Batalha de Aljubarrota – 14 de Agosto de 1385

Aljubarrota
Falecido D. Fernando I de Portugal, iniciou-se a Crise de 1383-85, pois os filhos varões do Rei, com D. Leonor Telles de Menezes, haviam morrido; e D. Beatriz (1372 – 1410), Infanta de Portugal, havia casado com D. João I, Rei de Castela, pelo que, sob pena de anexação de Portugal pelo Reino de Leão e Castela, a fidalguia portuguesa pretendia mantê-la afastada da sucessão. E era fortíssima a ameaça da união – que soava a integração – de Portugal com Castela e Leão, resultado do Tratado de Salvaterra de Magos, de 1383. Também, a burguesia mostrava-se desagradada com a regência da Rainha D. Leonor Telles e do seu amante, o Conde D’Andeiro e com a ordem da sucessão.
Estava por essa altura o país fragmentado em três facções que reclamavam a legitimidade à sucessão:
De um lado estava o partido legitimista, fiel a Castela, que defendia a causa da Infanta D. Beatriz, mulher do rei de Castela, a quem consideravam a única herdeira legítima do Rei de cujus, e entendiam vigorar plenamente o Tratado de Salvaterra de Magos, uma escritura antenupcial que defendia, a união dos dois reinos ibéricos, e ainda a regência da Rainha-viúva D. Leonor Telles, consorte do rei decesso.
Outro partido era o legitimista-nacionalista, a quem repugnava a ideia da perda da independência nacional – o que excluía D. Beatriz – e que era constituído pelos irmãos de D. Inês de Castro, D. Álvaro Pires de Castro e D. Fernando de Castro, e que defendiam a legitimidade da pretensão dos seus sobrinhos, o Infante D. João e o Infante D. Diniz, filhos do Rei D. Pedro I e D. Inês, e que portanto eram meios-irmãos do finado el-rei D. Fernando, e que o rei Cru, havia legitimado por casamento clandestino.
O terceiro partido, estritamente nacionalista, pugnava por um Rei português e colocava a supremacia e independência nacional acima de qualquer legitimidade, o que excluía a Infanta D. Beatriz, rainha de Castela e os filhos de D. Inês de Castro que viviam em Castela e, inclusive, já haviam combatido por esse Reino. Para estes últimos partidários, nos quais se incluíam o fervoroso D. Nuno Álvares Pereira, não restava então outra solução do que esquecer as habituais regras de sucessão e considerar o trono vago, como forma de salvaguardar a soberania nacional, elegendo como Rex Portucalensis D. João, Mestre de Avis, ainda que filho bastardo de D. Pedro.
O exercício de retórica para convencer a elite de Portugal congregada nos Três Estados, reunidos nas Cortes em Coimbra, a 06 de Abril de 1385, coube a João das Regras, que demonstrou que quer D. Beatriz quer os Infantes não eram filhos legítimos, a primeira porque o casamento entre D. Fernando e D. Leonor Telles de Menezes era inválido uma vez que o 1.º casamento da rainha não havia sido dissolvido legalmente, e que quanto ao filhos de Pedro e Inês o rei e os seus cortesãos havia prestado falsas declarações no que ao concerne ao casamento secreto de D. Pedro e D. Inês, embuste com a qual pretendeu legitimar os filhos. Todos os ali reunidos renderam-se ao exercício de oratória empolada de João das Regras e D. João foi eleito e Aclamado Rei pelas Cortes. Rei de Portugal, não por “direito próprio”, mas por eleição unânime e instado pelos Três Estados o que de acordo pela Lei medieval correspondia a um sinal da vontade Divina. D. João I consolidou definitivamente a sua posição e a de Portugal ao ser proclamado Rei de Portugal pelas Cortes reunidas em Coimbra.
Apesar das sucessivas derrotas militares, como em Lisboa e nos Atoleiros, o rei D. João I de Castela não desistira da coroa de Portugal, que entendia advir-lhe ius uxoris pelo casamento e opondo-se a tal resolução, responde invadindo Portugal, pela Beira-Alta, em Junho de 1385, e desta vez à frente da totalidade do seu exército e auxiliado por um forte contingente de cavalaria francesa. Quando as notícias da invasão chegaram, João I encontrava-se em Tomar na companhia de D. Nuno Álvares Pereira, o condestável do reino, e do seu exército, e mais uma vez, o chicote de Portugal, D. Nuno Álvares Pereira resolve tomar rédeas à situação e sitia as cidades que entretanto se converteram fiéis a Castela. Avança e a decisão tomada foi a de enfrentar os castelhanos antes que pudessem levantar novo cerco a Lisboa. Com os aliados ingleses, o exército português interceptou os invasores perto de Leiria. Dada a lentidão com que os castelhanos avançavam, D. Nuno Álvares Pereira teve tempo para escolher o terreno favorável para a batalha e a 14 de Agosto de 1385 tem a oportunidade de exibir toda a sua mestria e génio militar em Batalha.
A opção para a Batalha recaiu sobre uma pequena colina de topo plano rodeada por ribeiros, no Campo de São Jorge, Calvaria de Cima, nas imediações da vila de Aljubarrota, entre Leiria e Alcobaça. Contudo o exército Português não se apresentou ao Castelhano nesse sítio, inicialmente formou as suas linhas noutra vertente da colina, tendo depois, já em presença das hostes castelhanas mudado para o sítio predefinido, isto provocou bastante confusão nas tropas de Castela. Assim pelas dez horas da manhã do dia 14 de Agosto, o exército português e os aliados ingleses comandados por El-Rei de Portugal D. João I e o Condestável do Reino tomaram a sua posição na vertente norte desta colina, de frente para a estrada por onde o exército castelhano e seus aliados franceses liderados por D. Juan I de Castela e Leão, eram esperados.
A disposição portuguesa era a seguinte: infantaria no centro da linha, uma vanguarda de besteiros com os 200 archeiros ingleses, 2 alas nos flancos, com mais besteiros, cavalaria e infantaria. Na retaguarda, aguardavam os reforços e a cavalaria comandados por D. João I de Portugal em pessoa. Desta posição altamente defensiva, os portugueses observaram a chegada do exército castelhano protegidos pela vertente da colina. A vanguarda do exército de Castela chegou ao teatro da batalha pela hora do almoço, sob o sol escaldante de Agosto. Ao ver a posição defensiva ocupada por aquilo que considerava os rebeldes, o Rei de Castela tomou a esperada decisão de evitar o combate nestes termos. Lentamente, devido aos 30.000 soldados que constituíam o seu efectivo, o exército castelhano começou a contornar a colina pela estrada a nascente. A vertente sul da colina tinha um desnível mais suave e era por aí que, como D. Nuno Álvares previra, pretendiam atacar. O exército português inverteu então a sua disposição e dirigiu-se à vertente sul da colina, onde o terreno tinha sido preparado previamente. Uma vez que era muito menos numeroso e tinha um percurso mais pequeno pela frente, o contingente português atingiu a sua posição final muito antes do exército castelhano se ter posicionado. D. Nuno Álvares Pereira havia ordenado a construção de um conjunto de paliçadas e outras defesas em frente à linha de infantaria, protegendo esta e os besteiros. Este tipo de táctica defensiva, muito típica das legiões romanas, ressurgia na Europa nessa altura. Pelas seis da tarde, os castelhanos ainda não completamente instalados decidem, precipitadamente, ou temendo ter de combater de noite, começar o ataque. É discutível se de facto houve a tão famosa táctica do “quadrado” ou se simplesmente esta é uma visão imaginativa de Fernão Lopes de umas alas reforçadas. No entanto tradicionalmente foi assim que a Batalha acabou por seguir para a história. O ataque começou com uma carga da cavalaria francesa a toda a brida e em força, de forma a romper a linha de infantaria adversária. Contudo as linhas defensivas portuguesas repeliram o ataque. A pequena largura do campo de batalha, que dificultava a manobra da cavalaria, as paliçadas (feitas com troncos erguidos na vertical separados entre si apenas pela distancia necessária à passagem de um homem, o que não permitia a passagem de cavalos) e a chuva de virotes lançada pelos besteiros (auxiliados por 2 centenas de arqueiros ingleses) fizeram com que, muito antes de entrar em contacto com a infantaria portuguesa, já a cavalaria se encontrar desorganizada e confusa. As baixas da cavalaria foram pesadas e o efeito do ataque nulo. Ainda não perfilada no terreno, a retaguarda castelhana demorou a prestar auxílio e, em consequência, os cavaleiros que não morreram foram feitos prisioneiros pelos portugueses. Depois deste revés, a restante e mais substancial parte do exército castelhano atacou entraram em confronto com a infantaria portuguesa: “Castyla! Sant’iago!” ao que os portugueses replicaram bradando “Portugal! São Jorge!”. A linha castelhana era bastante extensa, pelo elevado número de soldados. Ao avançar em direcção aos portugueses, os castelhanos foram forçados a apertar-se (o que desorganizou as suas fileiras) de modo a caber no espaço situado entre os ribeiros. Enquanto os castelhanos se desorganizavam, os portugueses predispuseram as suas forças dividindo a vanguarda de D. Nuno em dois sectores, de modo a enfrentar a nova ameaça e onde se destacou com especial bravura a famosa Ala dos Namorados.
Mas, vendo que o pior da investida castelhana ainda estava para chegar, o Rei de Portugal ordenou a retirada dos besteiros e archeiros ingleses e o avanço da retaguarda através do espaço aberto na linha da frente. Desorganizados, sem espaço de manobra e finalmente esmagados entre os flancos portugueses e a retaguarda avançada, os castelhanos pouco puderam fazer senão morrer.
Ao entardecer a batalha estava já perdida para Castela. Precipitadamente, D. João de Castela ordenou uma retirada geral sem organizar uma cobertura. Os castelhanos debandaram então desordenadamente do campo de batalha. A cavalaria Portuguesa lançou-se então em perseguição dos fugitivos, dizimando-os sem piedade. Alguns fugitivos procuraram esconder-se nas redondezas, apenas para acabarem mortos às mãos do povo. Surge aqui um mito português em torno da batalha: uma mulher, de seu nome Brites de Almeida, recordada como a Padeira de Aljubarrota, iludiu, emboscou e matou, pelas próprias mãos, alguns castelhanos em fuga. A história é por certo uma lenda da época! De qualquer forma, pouco depois, D. Nuno Álvares Pereira ordenou a suspensão da perseguição e deu trégua às tropas fugitivas. Ao amanhecer do dia seguinte, a catástrofe sofrida pelos castelhanos ficou bem à vista: os cadáveres eram tantos que chegaram para barrar o curso dos ribeiros que flanqueavam a colina e o barulho ensurdecedor do crocitar dos corvos contribuía para o cenário de terror. Para além de soldados de infantaria, morreram também muitos nobres castelhanos, o que causou luto em Castela.
A Batalha de Aljubarrota representa uma das raras grandes batalhas campais da Idade Média entre dois exércitos régios e um dos acontecimentos mais decisivos da História de Portugal. No campo militar significou a inovação de uma táctica, onde os homens de armas apeados foram capazes de vencer a poderosa cavalaria medieval. No campo diplomático, permitiu a aliança entre Portugal e a Inglaterra, que perdura até aos dias de hoje, pois no ano seguinte foi assinado o Tratado de Windsor, aliança consolidada em 1387 pelo casamento de D. João I com a Princesa Inglesa Dona Filipa de Lencastre (Lady Phillippa of Lancaster), filha de John Gant, Duque de Lancaster, e neta do então monarca inglês Eduardo III, de cujo consórcio matrimonial nasceria a Ínclita Geração. No aspecto político, resolveu a disputa que dividia o Reino de Portugal do Reino de Leão e Castela, permitindo a afirmação de Portugal como Reino Independente.
Miguel Villas-Boas – Plataforma de Cidadania Monárquica

domingo, 13 de agosto de 2017

O Brasil não é invenção do século XIX, mas Europa antiga no mundo novo.

Foto de Nova Portugalidade.

Que país é esse que sofre entre a incúria dos políticos, a ganância dos chefes e a corrupção dos egoístas para ascender ainda assim, fazer-se ouvir ainda assim, e consubstanciar ainda assim as esperanças de centralidade e influência do hemisfério sul? Que Brasil é esse que cresce apesar da incapacidade esterilizadora da classe política e da conspiração dos que parecem apostados em prendê-lo à subalternidade e à cobiça das grandes companhias anglo-saxónicas? É um jovem de braço forte, mas espírito corrompido por décadas de mentira, de falsificação, de vitimização sem sentido, de mitificação do seu passado de grandeza e ocultação da sua identidade portuguesa. De todos os desafios com que se confronta a nação brasileira, nenhum é mais feroz no ódio ou perigoso nas implicações que a redução da História do Brasil à rejeição da sua portugalidade.

O que é, pois, o Brasil? Um Portugal maior, um gigante descoberto, desbravado e construído pela aliança entre a espada do bandeirante e a cruz do missionário. Não tem duzentos anos, mas quinhentos; não foi colónia, mas Portugal americano; não foi objecto, mas agente da História e verdadeiro centro de acção e decisão. O Brasil real, filho desse império que se estendia do sertão americano às costas escarpadas do Japão, em tudo difere da caricatura anti-portuguesa - e, crucialmente, anti-brasileira - que lhe faz a historiografia moderna. O Brasil que imaginam votado ao embrutecimento era casa de incontáveis escolas e colégios. Era berço de artistas de toda a sorte, de escultores e arquitectos - veja-se o brilhante Aleijadinho - a homens das ciências como Lacerda e Almeida, o intrépido descobridor da entranhas de África. Foi, ainda, como recordam Salvador Correia de Sá ou Alexandre de Gusmão, berço de tantos dos estadistas e capitães que fizeram e preservaram o império. E não foi o Brasil destinação do padre Vieira, o imperador das nossas letras? Dizem-no colónia, querendo humilhá-lo por haver sido português, mas não sabem que os direitos das cidades do Brasil eram os de Lisboa e do Porto, que as suas instituições políticas - os Senados das Câmaras, as Casas dos Vinte e Quatro - eram as do Portugal europeu?

Ao separar-se da terra-mãe, expulso que foi dela pelo radicalismo centralizador dos liberais de 1820, percebeu o Brasil o quanto era português, e português se manteve na independência. Fez-se república no momento da secessão, expulsou os Braganças, disse-os estrangeiros? Não, deu-lhes a sua coroa recém-forjada. Fez guerra, como todos os seus pares americanos de língua espanhola ou inglesa, aos símbolos do pai europeu? Não, adoptou-os como seus e colocou-os nas suas suas armas. Tão português é o Brasil que o estandarte da sua independência política - o da esfera armilar e da cruz de Cristo - é também o da continuidade espiritual e sentimental com Portugal. Nem a lei, que continuou a ser a portuguesa - as antigas Ordenações Filipinas, ainda em vigor à data da separação - abandonou de imediato, nem as grandes instituições do Estado demoliu, limitando-se a fazer "imperial" e "brasileiro" o que antes fora "real" e "português". Esta é a verdade do sangue do Brasil, da carne do Brasil, do espírito do Brasil. Esta é verdade do que é essa grande nação emergente: um Portugal continuado na América, um Brasil que só pode continuar brasileiro - e que só terá como salvar-se da americanização cruel que hoje lhe impõem - se mantiver forte a sua identidade portuguesa. Reavivá-la é a missão sagrada de todos os patriotas do Brasil.
RPB

sábado, 12 de agosto de 2017

UMA CHINA CRISTÃ? O GRANDE PROJECTO PORTUGUÊS DESTRUÍDO PELA INVEJA

Foto de Nova Portugalidade.

Se os portugueses sofrem de inveja, também nós, fomos desde sempre, invejados por outros povos. Inveja das nossas possessões, e cobiça do nosso triunfo no Oriente. 

Na segunda metade do século XVI e no princípio do século XVII, Portugal vivia o auge do seu domínio no Índico. Para além do número incontável de feitorias e fortalezas que foram fundadas desde o Golfo Pérsico ao Japão, a acção missionária crescia, cada vez era maior o número de conversões e vocações, tanto de indígenas, como de missionários. De início, pareceram os locais de fácil cristianização, mas depois, à medida que os esforços foram sendo maiores, percebeu-se que havia várias barreiras. Portugal quis levar o Ocidente ao Oriente, quis estabelecer laços e dar as mãos com povos de outras raças nunca antes conhecidas. Tanto na Índia como na China, o hinduísmo, o Budismo, o Taoísmo, as tradições de culto chinesas, o Confucionismo, nada tinham a ver com o catolicismo que se professava na Europa. O quotidiano dos povos era diferente, havia uma diferença abismal nas mentalidades, na Fé, na prática do acreditar, nas relações políticas entre chefes de estado e nas hierarquias sociais, de dois continentes que cresceram separados e que se encontravam agora pela primeira vez. Como sabemos, os principais responsáveis pela evangelização no Oriente, numa primeira fase, foram os jesuítas ao serviço do Padroado Português. Seguindo o exemplo do Apóstolo das Índias, aquele que mais e melhor converteu, S. Francisco Xavier, os jesuítas na China tentaram numa primeira fase perceber quais as melhores estratégias de conversão, penetrando na cultura Chinesa, e avaliando como poderiam iniciar esta empresa. Havia que se dar a conhecer aos poucos a realidade da Salvação a quem não a conhecia. Para isso, era necessário adaptar os valores da religião de Jesus Cristo às necessidades e crenças dos orientais.

Numa primeira fase da cristianização da China, vários padres jesuítas ao serviço do Padroado conseguiram estabelecer relações com responsáveis políticos, com sacerdotes e com o governadores locais, letrados e mandarins, matemáticos e cientistas, ganhando terreno e protecção para permanecerem no território. Constroem-se colégios de Jesuítas (no que merece destaque o de São Paulo, em Macau) e fundam-se igrejas com cada vez mais fiéis. O mérito, ficava para os jesuítas e para os portugueses. Contudo, essa acção de evangelização teve sucesso devido à inteligência e espírito visionário dos missionários que conseguiram adaptar e incutir a religião católica na tradição chinesa - e, no século XVII, chegou-se ao ponto da quase conversão ao cristianismo do imperador Chongzen. Para levar os chineses à igreja, pediu-se a Roma que abrisse algumas excepções à ortodoxia católica, tais como a possibilidade de utilizar a língua chinesa na liturgia, uma vez que só o Latim era utilizado e não era permitida a utilização do vernáculo nas celebrações (permitida em 1656 por Alexandre VII). Usaram também os símbolos e tradições locais para melhor mostrarem a presença de Cristo. Usava-se uma tabuleta, no cimo das igrejas com uma inscrição que traduzida quer dizer "Senhor Celestial" ou "Reverência para o Céu", isto porque os chineses tinham conhecida devoção pelo céu, com isso se fazendo mais fácil explicar onde estava, donde vinha e quem era o Redentor.

Com isto, houve quem se opusesse ao dizer que se tratava de uma tradução mal feita do sagrado nome de Deus. Depois, insurgiram-se contra a participação dos cristãos recém-convertidos - que os jesuítas haviam, sensatamente, permitido - em funerais e cerimónias de culto aos antepassados, à natureza ou a Confúcio. E, assim, veio a contestação à participação pelos padres do Padroado em cerimónias de Estado. Estes factos vieram a conduzir à derrocada do extenso labor evangelizador que havia sido feito na China. A convivência entre pessoas de diferentes credos foi perigada, deitando por água abaixo o trabalho dos missionários Matteu Ricci, Adam Schall e Martino Martini, entre muitos outros. E tudo isto devido à inveja; crescendo o sucesso do Padroado, e por isso a influência e penetração de Portugal na China, nasce a Sociedade para as Missões Estrangeiras de Paris e a Congregação de Propaganda Fide. Estas tratam, em lógica que deve ser integrada nos interesses políticos da coroa francesa, de enviar missionários Franciscanos e Carmelitas para o Império do Meio. Surgiu uma terrível rivalidade entre missionários de diferentes ordens religiosas e de diferentes nacionalidades, acompanhada de verdadeira perseguição aos chamados "ritos chineses". O cristianismo recalibrado, adaptado à mundivisão e necessidades dos chineses, foi formalmente censurado pelo Papa Clemente XI e votado a rigorosa perseguição. A China, naturalmente, reagiu. Se o Imperador Kangxi, Filho do Céu entre 1667 e 1722, tinha permitido a livre evangelização pelos missionários cristãos, agora vai, surpreendido com uma religião tão pouco tolerante e tão dada a violências, proibi-la. Quianlong e Jiajing continuaram a política, que conduziu à expulsão da China de todos os padres excepto os que serviam o Império como cientistas ou astrónomos. O cristianismo seria proibido.

Assim perdeu Portugal influência e amizade que lhe levara cento e cinquenta anos a construir; assim, também, se perderam para a Cristandade as vastidões geográficas e humanas da China. Os portugueses compreendiam a Ásia; os restantes europeus, não.

Tomás Severino Bravo

Em tempo de tensão internacional, precisamos mais que nunca da Portugalidade como intermediária do diálogo intercivilizacional

Foto de Nova Portugalidade.

A ordem internacional caminha rapidamente, tudo o indica, para o 
multipolarismo e até mesmo para um novo realinhamento em blocos. 
País atlântico, partilhando a língua e a memória histórica com um 
grande Estado em ascensão (Brasil), com a nascente potência angolana 
e até com o mais recente Estado asiático (Timor-Leste), à portugalidade 
poderá caber um papel na intermediação de conflitos, tensões e 
incompreensões que certamente adensarão as relações entre o Ocidente 
e as outras civilizações.

Se há uma universalidade possível, uma consciência que é apanágio do 
tempo presente – um homem que se diz civilizado não o pode ser se não 
aceitar o direito à participação e escolha dos homens, sem distinção de 
sexo, etnia e grupo social no governo da sua sociedade; como também 
não pode ser civilizado se não repudiar a escravidão, a tortura e a opressão 
dos fracos – essa terá de ser entendida apenas no pressuposto da 
permeabilidade das diversas matrizes à assunção da única gramática 
comum, aliás contida em todas as expressões do sagrado, dos textos 
sapienciais às religiões reveladas, das cosmogonias primitivas às filosofias. 
O não matar em vão e o não roubar são culturemas universalmente 
partilhados pela espécie humana que antecedem em milénios as solenes 
racionalizações do século XVIII.

A tentação de ver democracias e mercado espalhados pelo orbe, ao invés 
de permitir a criação de uma comunidade dos homens, mais importante 
do que a comunidade internacional dos Estados, pode provocar o caos 
e uma perigosa resposta a esse cruzadismo nascido em alguns think 
tanks do hemisfério norte. Forçar civilizações e culturas para as quais a 
democracia de feição ocidental, de ethos individualista, é sinónimo de 
destruição da comunidade, da hierarquia, da disciplina e de outras 
expressões do estatismo orgânico em que sempre viveram, pode 
redundar, não no triunfo da democracia, mas no triunfo de tiranias reactivas 
de magnitude por ora incalculável. Para o concerto entre as nações e o 
apaziguamento de vontades de imposição e aculturação violenta pode e 
deve a Portugalidade concorrer.

Miguel Castelo-Branco

sábado, 5 de agosto de 2017

A cruz que há oitocentos anos acompanha Portugal


Foto de Nova Portugalidade.

"Esta cruz mandou fazer El Rei Dom Sancho no ano de 1214", lê-se gravado, leve mas firme, no metal finamente trabalhado. Esta inscrição, a única que se acha no rico objecto, mandou-a imprimir Dom Sancho em leito de morte. O Rei Povoador, que foi o segundo de Portugal, desaparecera antes, em 1211, mas deixara ordens para que em seu nome viesse a forjar-se a Cruz. Quem lha fez não nos é revelado: a Cruz de Dom Sancho é obra do século XIII, quando não era ainda usual do artífice perpetuar-se no tempo pela assinatura da sua arte. O que nos é dado saber é que o objecto é produto de operação de reutilização, como se o artista tivesse insuflado nova vida no ouro velho. Dom Sancho deixou em testamento o ouro - entre este, ao que parece, uma "copa" - e as pedras preciosas com que veio a produzir-se a Cruz.

Ordenou-a Dom Sancho por dois motivos, ambos atendíveis ao olho de um católico - e católico era, e mais terá ficado com a aproximação da morte, o rei. Por um lado, diz-se que o soberano se teria preocupado em abandonar esta terra com um acto de piedade, pois haviam sido numerosos durante o seu governo os conflitos com a Igreja, e Sancho sentia ter razão para temer pela alma. Outro motivo, de prova mais simples, é que o Rei pretendia guardar dignamente a relíquia do Santo Lenho da Vera Cruz, a cruz em que foi crucificado Cristo, que possuía e que recebera do pai Afonso Henriques.

O objecto resultante é extraordinário. Em primeira linha, é-o por ter sobrevivido, sem dano significativo ou falha que se note, a oitocentos anos de turbulenta, instável, tantas vezes caótica história nacional. A Cruz de Dom Sancho, protectora, pelo menos de início, do Santo Lenho, foi doada ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, e de lá não saiu até às perseguições religiosas movidas pelo partido liberal após 1834; hoje, é quase milagrosamente que se encontra exposto, em perfeita condição, no Museu Nacional de Arte Antiga. Mas mais fabulosa é a Cruz por em tudo exibir originalidade, arrojo artístico, determinação de marcar: o emprego da flor-de-lis é, talvez, o mais antigo numa Península Ibérica onde era, e continuou a ser por várias décadas, mais popular o austero desenho da cruz grega; a profusão de cores e pedras preciosas é também motivo de surpresa, e rareiam os exemplares de similar ornamentação. Jóia antiquíssima e que testemunhou boa parte da vida nacional, a Cruz de Dom Sancho é um verdadeiro tesouro - para Portugal e a Portugalidade.

RPB

O que andamos a fazer na Europa ?

Fujamos da Europa. O nosso lugar é no mundo. Aqui está a prova que tentam ocultar: fazer esquecer aos portugueses que estivemos na Ásia durante meio milénio, reduzir-nos a um obscuro e periférico lugar no canto extremo do ocidente da Europa dos negócios e dos colarinhos brancos. Venham à Ásia, visitem Goa, Malaca, Flores, Timor, Banguecoque e Macau e descobrirão a tamanha fraude em que nos deixámos enredar. A titulatura régia de outrora mantém plena actualidade: pela Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc. Perdeu-se o Império mas ficaram as gentes fiéis a essa ideia de fraternidade universal que nenhum mercado pode destruir. Enfurece-me ver tanta ignorância adamascada, tanto pateta inteligente e tanto candidato a europeu convencidos da bondade do caminho da anulação em que entusiasticamente nos precipitámos. Ainda há tempo !

A história é simples. No primeiro quartel do século XIX, os holandeses e os franceses foram simplesmente varridos do mapa político da Ásia. Portugal, se bem que Goa fosse ocupada pelos britânicos, recrudesceu a sua iniciativa, pois era aliado do Reino Unido e um precioso complemento para a acção comercial e diplomática da Companhia Britânica das Índias Orientais. Na década de 1820, durante a governação de Diogo de Sousa, Conde de Rio Pardo, Portugal lançou generalizada ofensiva e restabeleceu parcialmente a influência que detivera em finais do século XVII, nesse ainda tão mal conhecido período da regência de D. Pedro. Os dois grandes travões ao retorno de Portugal à Ásia após a independência do Brasil foram, gostemos ou não, a criação da cidadania - que privou os portugueses asiáticos de ligação formal ao corpo da nação - e logo de seguida a extinção das ordens religiosas, que mutilou para sempre a actividade missionária do Padroado no Oriente. Não obstante estes dois fenómenos, verifica-se pujante actividade comercial em torno dos bandéis portugueses espalhados ao longo das costas do Índico, do Mar da China e do Pacífico: da foz do Ganges ao Irrawady, de Penang-Malaca a Singapura, de Batávia a Macau, do Tonquin ao Sião, não esquecendo a consolidação do funcionalismo especializado colocado junto das cortes do Camboja, Birmânia e Sião.

Ao contrário do que recita sem fundamento a lenda negra da decadência - uma pecha comum à tão aclamada Geração de 70 - tínhamos os melhores administradores, os mais sagazes diplomatas, conhecíamos melhor a região que os britânicos, detínhamos a lingua franca, estávamos profundamente incrustados nas sociedades de acolhimento, não nos envolvíamos em conflitos militares possuíamos o tal estatuto de Potência Histórica que funcionava e garantia confiança dos interlocutores. Os britânicos, por seu turno, não representavam um Estado, mas uma companhia, a sua elite tropical era de baixa extracção e falha de preparação, desconhecia as línguas e dialectos locais e eram tidos como agressivos e concorrentes no domínio dos circuitos comerciais há muito estabelecidos: o junk trade chinês e as rotas marítimas que ligavam os negari islâmicos da Insulíndia ao golfo pérsico. Em mais de duzentas obras consultadas até ao presente - memórias e relatórios de viagens de britânicos, franceses, holandeses e germânicos que pelo Sudeste-Asiático passaram entre as décadas de 1810 e 1860 - o mesmo resultado: os portugueses estavam em todo o lado, mantinham entre sí vínculos e trocavam informações, batiam a concorrência, impediam o acesso de forasteiros aos seus santuários. Foi há pouco tempo. Esse capital de memória, se bem que afectado pelo colonialismo europeu na região, manteve-se e ainda hoje, na Índia, no Paquistão, no Sri Lanka, no Bangladesh, na Birmânia, Tailândia, Singapura, Malásia e Indonésia há quem reclame o traço distintivo da herança sanguínea portuguesa.

Ontem, uma agradável descoberta. Dez documentos de uma assentada relativos à chegada da embaixada que Francisco Isidoro Guimarães, Governador de Macau, encabeçou ao Sião em 1859. Comparando-a com os documentos referentes a britânicos, norte-americanos e holandeses, duramente negociados, com "talks about talks" que se prolongaram por anos entre as autoridades siamesas e sucessivos enviados, a embaixada de Portugal apareceu na foz do Chao Phrya, enviou notícia da chegada a Banguecoque e foi recebida. No primeiro acto solene, o Rei Rama IV (Mongkut) disse, satisfeitíssimo: "estávamos há vossa espera há anos e agora apareceram, meus bons amigos". As negociações decorrem em meia dúzia de dias, sempre entre banquetes, representações teatrais e espectáculos de música, com as portas dos palácios e templos abertos em par a oficiais e marujos portugueses. Não houve resistência, medo e aquele ganhar de tempo que caracteriza a diplomacia dos asiáticos. Foi tudo assinado de cruz, regado com Madeira e juras eternas de amizade.

Se me fosse possível falar com o Primeiro-Ministro, dir-lhe-ia: "Excelência, não tenham medo, corram o risco, apareçam em Colombo, Dacca, Naypyidaw, Banguecoque e Phnom Pehn e digam-lhes aqui estamos, para restabelecer o que por ignorância quase deixámos cair no esquecimento". "Para que servem embaixadas na Argentina, Áustria, Bulgária, República Checa, Chile e em Cuba, no Egipto, Finlândia, Irlanda, Sérvia ou na Grécia ? Realizam captação de investimento, a expansão do comércio português, elevam a capacidade negocial portuguesa ? Não tenham medo, invistam o esforço na Ásia nestas últimas décadas de hegemonia ocidental, preparem o futuro".
Miguel Castelo Branco

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Aveiro Cidade dos Canais

REPORTAGEM FOTOGRÁFICA DA XV TOURADA REAL EM SALVATERRA DE MAGOS

XV TOURADA REAL à Antiga Portuguesa | Salvaterra de Magos
Colaboração da Real Associação Ribatejo e Causa Real.
Com a presença de SS.AA.RR. Os Duques de Bragança.
Créditos Fotográficos: Nuno de Albuquerque

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.
O grupo de forcados dedica a pega a S.A.R. O Senhor Dom Duarte de Bragança

Foto de Bruno de Castro.
O cavaleiro Luís Rouxinol recebe de S.A.R. O Duque de Bragança a placa de homenagem dos 30 anos de alternativa atribuída pela Real Associação Ribatejo

Foto de Bruno de Castro.
S.A.R. O Duque de Bragança entrega a placa de homenagem da Real Associação Ribatejo pelos 10 Anos de Alternativa do cavaleiro.

Foto de Bruno de Castro.
S.A.R. O Duque de Bragança entrega a placa de homenagem póstuma da Real Associação Ribatejo ao Mestre David Ribeiro Telles

Foto de Bruno de Castro.
SS.AA.RR. Os Duques de Bragança entregam a medalha da Real Associação Ribatejo

Foto de Bruno de Castro.
S.A.R. O Duque de Bragança entrega a placa de homenagem da Real Associação Ribatejo ao empresário tauromáquico

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.
Familia Cunha Coutinho na XV Tourada Real

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.
O empresário Rafael Vilhais e S.A.R. O Senhor Dom Duarte entregam o cheque donativo ao Comandante dos Bombeiros Voluntários de Salvaterra de Magos

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.

Foto de Bruno de Castro.
S.A.R. O Senhor Dom Duarte de Bragança cumprimenta o cavaleiro João Moura Jr antes da corrida


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

25 de Julho, o primeiro dia português

Foto de Nova Portugalidade.

Vinte e cinco de Julho de 1111, ou de 1109, nascia Dom Afonso Henriques; 
vinte e cinco de Julho de 1139, nascia no campo de Ourique a vitoria que 
levaria os portugueses à vida livre; vinte e cinco de Julho, dia de Santiago 
Maior. A coincidência das três datas, o nascimento do monarca fundador, 
o seu triunfo sobre cinco taifas mouras e a festa de Santiago Matamouros, 
patrono da Reconquista, carece de prova, e pode muito bem ter sido 
invenção - por certo patriótica e bem intencionada - dos cronistas. Sabido 
é que pouco se conhece das circunstâncias que rodearam aquele triunfo 
das armas portuguesas: se alguns cronistas insistem em cinco reis 
maometanos coligados e batidos, outros há para quem a vitória do português 
foi apenas sobre um chefe mouro. O Milagre de Ourique, ainda, teria sido 
ocorrência bela, mas não há fontes coevas que o admitam, e muito menos 
que o secundem: as primeiras referências ao formidável acontecimento, 
em que o próprio Cristo teria aparecido a Afonso na noite anterior à batalha 
para prometer-lhe que a monarquia portuguesa jamais cairia, pois sempre se 
manteria espada e fortaleza da fé cristã, datam apenas do século XVII. Tudo 
parece indicar, assim, que o Milagre foi conveniente acrescento dos monges 
de Alcobaça quando, em plena Guerra da Restauração, havia que dar 
empenho aos portugueses na luta contra os Habsburgos de Espanha.

O nascimento do Rei, como a batalha em Ourique, estão envoltos em incerteza, 
e de nenhum se sabe ao certo quando ocorreu. Certo é que a generalidade 
das fontes, como a Chronica Gothorum, ou Crónica dos Godos, confirmam 
a data de 25 de Julho, mas divergem da versão comum ao colocarem Dom 
Afonso frente a apenas um rei árabe, de nome "Esmar". Já o aniversário do 
Rei é igualmente alvo de controvérsia, e à noção comum de que Dom Afonso 
nasceu a 25 de Julho de 1111 em Guimarães se levantou, no século XX, a 
objecção de que teria, pelo contrário, aparecido ao mundo em 1109 em 
Coimbra ou Viseu. Não podendo haver certeza quanto a nenhum dos 
problemas, em ambos opta a Nova Portugalidade por aderir à tradição e 
por datar os dois grandes acontecimentos nacionais em 25 de Julho - um 
de 1111, outro de 1139.

Quanto à batalha, tudo o resto é incerto. O local é-nos desconhecido, 
reclamado que é por todos os numerosos campos de Ourique existentes 
em solo português. Prudente, pois, é afirmar que houve batalha, 
independentemente de ela ter oposto Dom Afonso a um ou a cinco reis 
mouros; razoável é, também, que era improvável a vitória portuguesa e 
muito superior a hoste moura que se nos opôs. Cimentado o domínio de 
Dom Afonso sobre Portugal com aquele triunfo e acalmada a moirama a 
sul, o filho de Henrique passaria, pouco depois da batalha, a assinar como 
"Rei dos Portugueses", e já não como "Príncipe" ou "Duque"; o seu título 
real seria reconhecido pelo primo Afonso de Leão em Zamora dali a quatro 
anos, e pela Santa Sé em 1179. Do Rei nascido a 25 de Julho, brotava a 25 
de Julho, dia de Santiago, a liberdade nacional - e o mundo não mais seria 
o mesmo.

RPB