quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Nuno Galopim desvenda a vida do rei D. Manuel II


Estreia do jornalismo na ficção com um romance de descoberta do último rei de Portugal: "Todos sabem o seu nome mas é o que menos conhecemos"

Os Últimos Dias do Rei é o terceiro livro que Nuno Galopim assina em dois anos. Depois de Os Marcianos Somos Nós (Gradiva, 2015) e da biografia dos The Gift, o novo título marca a estreia do jornalista na ficção, a partir da vida de D. Manuel II, monarca sem trono, que, após a implantação da República, se instala nos arredores de Londres, em Fulwell Park, onde morre em 1932, aos 43 anos, sem ter voltado a Portugal. Assume os destinos de Portugal com apenas 18 anos, e sem esperar, após o assassinato do pai, o rei D. Carlos, e do herdeiro ao trono, Luís Filipe, em 1908. Dois anos depois o regime cai definitivamente. É por aí que o autor começa a narrativa. Para o final, e porque é um apaixonado pelos "e ses..." da ficção histórica, permite-se traçar cenários.

O que é real e o que é ficção em Os Últimos Dias do Rei?
Tudo o que é relacionado com a vida de D. Manuel é factual e resultou de meses de leitura e muita recolha de dados, cruzando várias fontes, para obter o maior número possível de pontos de vista. O que é ficção é a criação de pontos de ligação entre a história de D. Manuel: a história de 2016, que é o motor de todas as descobertas, e o jornalista de 1932 que acompanha [o rei] nos seus últimos tempos de vida. É através desta relação entre duas personagens fictícias que descobrimos D. Manuel II. Acho que todos os portugueses sabem o seu nome porque foi o último rei de Portugal, mas na verdade é aquele de quem nós, como coletivo, menos conhecemos.

O que descobriu sobre D. Manuel?
Antes mesmo de o Estado português ter tomado posição na I Guerra Mundial, ele ofereceu os seus préstimos ao rei de Inglaterra, tomou partido no esforço de guerra pelos Aliados e trabalhou com hospitais até ao final do conflito. Foi uma figura importante no estabelecimento de novas formas de tratar um certo tipo de ferimentos, ligados sobretudo à ortopedia, pensando não só o tratamento em si, mas a colocação desses feridos no mercado laboral finda a guerra, o que fez dele uma figura muito querida da associação de ortopedistas ingleses. Sabia que era um amante do desporto, mas não fazia ideia que ele tinha estado na final feminina de Wimbledon em 1932, pouco antes da sua morte.

Porque decidiu escrever ficção?
Não decidi, foi o Francisco Camacho [editor da Esfera dos Livros] que me desafiou! Ele perguntou--me muito simplesmente: por que não fazes uma ficção? E eu respondi: sou jornalista, só escrevo sobre coisas factuais, não sei inventar histórias. Ele insistiu. Como não me podem lançar desafios, disse que sim... e procurei encontrar pontes entre o trabalho de um jornalista na sua relação com a realidade de uma forma desapaixonada, correta, informativa e formativa, e depois o lado do ficcionista que encontra uma trama para lá encaixar estas várias histórias.

Em vez de existir um alter ego, existem dois: o jornalista de 1932 e o estudante de cinema de 2016.
Dividi-me em duas figuras, um jovem recém-formado em cinema que está a viver em Londres, e um jornalista que nos anos 30 entrevista D. Manuel II.

Visitou os locais do livro?
Foi muito importante ir aos espaços: visitar o Palácio das Necessidades e ver onde era o quarto de D. Manuel II, onde era o quarto do irmão, reparar que havia umas escadinhas que levavam ao quarto da rainha, no andar de cima. E, além disso, ir a Londres, não só à loja da Maggs Brothers, que hoje já não está no mesmo espaço do que nos tempos de D. Manuel, mas perceber o que é a loja e sentir o ar daqueles livros. E ir até à casa dele. A mulher dele, Augusta Vitória, vendeu a propriedade algum tempo depois da morte do rei. Essa zona foi loteada. As ruas chamam-se D. Manoel Road, Augusta Road, Portugal Gardens... E é pela toponímia que sabemos que a memória do rei está ali, na igreja onde ele ia, e que tem fotografias dele e uma placa a lembrá-lo, está na loja onde há um livro sobre D. Manuel II, mas cada vez mais essa memória está a dissipar-se. O tempo erode essas memórias e cabe aos livros fixá-las.

Fonte: DN
Publicado por: Monarquia Portuguesa

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Bronze para Portugal: parabéns, Telma!

“Pensei muito em Deus e como Ele sabe tudo e, [como] eu tinha sido paciente para continuar a trabalhar, o meu dia acabaria por chegar!” – declarou a judoca Telma Monteiro, depois de ter ganho, no passado dia 8 de Agosto, a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Uma medalha que certamente premeia a sua qualidade como atleta, mas também e sobretudo a sua persistência, pois estes são os quartos Jogos Olímpicos em que participa, depois de ter estado, sem ter ganho nenhuma medalha, em Atenas, em 2004; em 2008 em Pequim; e, há quatro anos, em Londres.


Agora, no Brasil, a consagrada atleta portuguesa conseguiu a medalha de bronze, não obstante a sua condição física não ser a melhor, como a própria reconheceu: “Foram meses de receio, lágrimas e muita luta. Pensei que podia não estar aqui hoje. Tudo o que eu queria era ter mais uma oportunidade. Passei mais meses a recuperar do que a treinar, mas às vezes as coisas acontecem assim. Já vim favorita e não deu. Hoje vim com o joelho ligado. O ombro luxado, mas foi na garra, no querer. Teve de ser, tinha de dar” (Público, 9-8-2016, p. 36).
Não o podia ter dito melhor: “foi na garra, no querer”. Uma vontade de ferro, sem dúvida, mas aliada à fé em Deus, a quem se referiu explicitamente depois desta sua tão desejada e esforçada vitória: “pensei muito em Deus …” Deus ajuda os audazes, como diz o antigo adágio latino, mas não concede as suas graças aos que não lutam. Esse não foi o caso de Telma Monteiro, uma mulher de armas, que nunca desistiu, que lutou sempre, que não desanimou. Nem sequer agora que estava com o ombro lixado, digo, luxado. A sua adversária não ignorava esta sua especial vulnerabilidade e quis até tirar proveito desta desvantagem da judoca portuguesa, mas sem efeito. Porque a Telma, como os outros campeões, da fraqueza tira a força, à semelhança do apóstolo que, a propósito das suas lutas interiores, dizia: “quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12, 10).
Sempre que alguém, procedente de um meio socio-económico mais desfavorecido, ou pertencente a uma família desestruturada, é notícia por algum mau motivo, é comum atribuir as culpas às circunstâncias da sua vida. Um jovem argelino incendeia automóveis nos arredores de Paris? Claro, está desempregado, vive nos arrabaldes, não tem dinheiro, os pais estão divorciados, etc. Com certeza que as condições familiares, sociais e económicas não são indiferentes e é dever do Estado garantir a todos os cidadãos as condições necessárias para a sua realização pessoal e social. Mas não é menos verdade que também há pessoas que superam essas dificuldades. Com muita “garra”, como a Telma Monteiro, filha de um muito modesto pintor de automóveis e de uma cozinheira, algures na margem sul do Tejo.
Condenada a viver num bairro social, onde os seus pais ganhavam o indispensável para manter a numerosa família – quatro filhos, sendo o último adoptado –, a Telma Monteiro poderia ter desistido de ser uma atleta de alta competição, uma medalhada nos Jogos Olímpicos. Mas não são as sapatilhas mais sofisticadas, nem o iPhone último modelo, nem a roupa de marca que fazem os grandes desportistas. A Telma, muito antes de ganhar uma medalha, já tinha conquistado a fibra de que se fazem os campeões, sem arrogância, sem mágoa ou tristeza. Aliás, nem dos que a venceram guarda ressentimento, porque cada derrota foi também uma lição, de que está grata. Está bem com a vida, sente-se abençoada e, com impressionante humildade, confessa: “a minha vida tem sido espectacular!”
Por detrás de uma grande mulher há sempre uma grande família! Grande sobretudo nos valores, na generosidade. É com emoção que se ouve a desportista contar como os seus pais, que viviam com muitas dificuldades, aceitaram adoptar um sobrinho que, de outra forma, teria sido entregue a uma instituição. Tinham todos os motivos para rejeitar aquela criança, que não era deles e que ia sobrecarregar consideravelmente o já exíguo orçamento familiar, mas foi opção que nem sequer consideraram, manifestando, com simplicidade, uma grandeza de alma que não é comum.
Aguerrida, combatente, muito agressiva sobre o tapete… a Telma Monteiro tem contudo uma alma sensível e, por isso, na sua excelente entrevista à SIC, não escondeu as lágrimas que lhe caíram pela face, quando recordou o treinador amigo, já desaparecido, mas que sente sempre presente. Depois, arrependeu-se de ter chorado, porque tinha prometido a si mesma que o não ia fazer, mas essa sua fraqueza é sinal da grandeza do seu coração. São Pedro dizia que o ouro, embora perecível, prova-se pelo fogo (1Pdr 1, 7). O bronze também se derrete, quando as chamas são de amor genuíno e verdadeira gratidão.
Parabéns, Telma Monteiro, glória do judo nacional e honra de Portugal!
Fonte: Observador

NOTÍCIAS DO "PORTUGUESE CENTENARY APPEAL"

Real Associação da Beira Litoral: NOTÍCIAS DO "PORTUGUESE CENTENARY APPEAL":    Guiado pelo Anthony Bailey , segue em frente o Centenary Appeal , que vai prestar tributo aos soldados portugueses m...

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

COZINHEIRAS E "CHEFS"


Antigamente as cozinheiras dos bons restaurantes portugueses eram umas Senhoras rechonchudas e coradas, em geral já de idade respeitável, com nomes bem portugueses ainda a cheirar a aldeia – a D. Adozinda, a D. Felismina, a D. Gertrudes – e por vezes com uma sombra de buço que parecia fazer parte dos atributos da senioridade na profissão. Tinham começado por baixo e aprendido o ofício lentamente, espreitando por cima do ombro dos mais velhos. E tinham apurado a mão ao longo dos anos, para saberem gerir cada vez com mais mestria a arte do tempero, a ciência dos tempos de cozedura, os mistérios da regulação do lume. A escolha dos ingredientes baseava-se numa sabedoria antiga, de experiência feita, que determinava o que “pertencia” a cada prato, o que “ia” com quê, os sabores que “ligavam” ou não entre si. Traziam para a mesa verdadeiras obras de arte de culinária portuguesa, com um brio que disfarçavam com a falsa modéstia dos diminutivos – “Ora aqui está o cabritinho”, “Vamos lá ver se gosta do bacalhauzinho”, “Olhe que o agriãozinho é do meu quintal”. Ficavam depois a olhar discretamente para para nós, para nos verem na cara os sinais do prazer de cada petisco, mesmo quando à partida já tinham a certeza do triunfo, porque cada novo cliente satisfeito era como uma medalha de honra adicional. E a melhor recompensa das boas Senhoras era o apetite com que nos viam: “Mais um filetezinho?” “Mais uma batatinha assada?”.

Hoje em dia, ao que parece, nestes tempos de terminologias filtradas, já não há cozinheiros, há “chefes”, e a respectiva média etária ronda a dos demais jovens empresários de sucesso com que os vemos cruzarem-se indistintamente nas páginas da “Caras” e da “Olá”. Os nomes próprios seguem um abcedário previsível – Afonso, Bernardo, Caetano, Diogo, Estêvão, Frederico, Gonçalo, … – e os apelidos parecem um anuário do Conselho de Nobreza, com uma profusão ostensiva de arcaismos ortográficos que funcionam como outros tantos marcadores de distinção – Vasconcellos, Athaydes, Souzas, Telles, Athouguias, Sylvas… Quase nunca os vemos, claro, porque os deuses só raramente descem do Olimpo, mas somos recebidos por um exército de divindades menores cuja principal função é darem-nos a entender o enorme privilégio que é podermos aceder a semelhante espaço tão acima do nosso habitat social natural. A explicação da lista é, por isso, um longo recitativo barroco, debitado em registo enjoado, em que, mais do que dar-nos uma ideia aproximada das escolhas possíveis, se pretende esmagar-nos com a consciência da nossa pressuposta inadequação à cerimónia em curso.

A regra de ouro é, claro, o inusitado das propostas culinárias em jogo e, preferivelmente, a sua absoluta ininteligibilidade para o cidadão comum. Mandam, pois, o bom senso e o próprio instinto de auto-defesa que se delegue na casa a escolha do menu, sabendo-se, no entanto, que não vale a pena sonhar com que pelo meio nos apareça um pobre cabrito assado no forno, um humilde sável com açorda, ou uma honesta posta de bacalhau preparada segundo qualquer das “Cem Maneiras” santificadas das nossas Avós. Seja o que Deus quiser! E começam então a chegar a “profiterolle de anchova em cama de gomos de tangerina caramelizados, com espuma de champagne”, o “ceviche de vieira com molho quente de chocolate branco e raspa de trufa”, a “ratatouille de pepino e framboesa polvilhada com canela e manjericão”, e por aí fora, em geral com largos minutos de intervalo entre cada prato e o seguinte, para nos dar tempo de meditar sobre a experiência numa espécie de retiro espiritual momentâneo…

E é de experiência que se pode aqui falar no sentido mais fugaz do termo. Deliciosa ou intragável, a oferta tende a ser, por princípio, “one time only”, porque quando o empregado anuncia, na sua meia voz enfadada, o “camarão salteado em calda de frutos silvestres e açafrão”, o uso do singular não é metafórico – é mesmo um exemplar único da espécie que se nos apresenta em toda a sua glória, ainda que possa reinar isolado no meio de um prato em que em tempos caberia um costeletão de novilho com os respectivos acompanhamentos. Se se detestar, há pelo menos a consolação de que não haverá qualquer hipótese de reincidência do crime; se se adorar – o que há que reconhecer que muitas vezes acontece – ficará apenas a memória fugidia do prazer inesperado. A função do “chefe” é proporcionar-nos no palato esta sucessão de sensações momentâneas irrepetíveis, todas elas em doses cuidadosamente homeopáticas, um pouco como as configurações sempre novas de um caleidoscópio – ou, se se preferir uma imagem mais forte, como a versão gastronómica de uma poderosa substância alucinogénea, daquelas que faziam as delícias da geração hippie dos anos 60 quando lhe davam a ver, ora elefantes cor-de-rosa, ora hipopótamos azul-celeste. Wow!


Que saudades das Donas Adozindas, das Donas Felisminas, das Donas Gertrudes, mais camponesas ainda do que citadinas, com a sua sabedoria, as suas receitas de família, a sua simplicidade, a sua fartura, o seu gosto de servir bem, o seu sentido de tradição e de comunidade!



Rui Vieira Nery

Assunção da Virgem Maria