terça-feira, 10 de abril de 2018

No centenário de La Lys, o Verdun português

Foto de Nova Portugalidade.

A gesta do João Ninguém

Na madrugada de 9 de Abril de 1918, iniciava-se a última grande tentativa alemã destinada a romper a Frente Ocidental e decidir a terrível guerra que se arrastava há quatro anos. Para a ofensiva da primavera, que recebera o nome de código Georgette, o Alto Comando alemão preparara um minucioso plano que visava aplicar o grosso das suas tropas de elite num pequeno sector da frente onde se estimava que as defesas ali existentes ofereceriam menor resistência à pretendida operação de ruptura. Para tal missão foi incumbido o Sexto Exército Alemão, forte de onze divisões, sob o comando do experimentado general Ferdinand von Quast (1850-1939).


Enfraquecidos por meses de luta na lama das trincheiras, com falta de meios humanos, munições e armas pesadas, o Corpo Expedicionário Português (CEP) pouco poderia contrariar a manobra alemã. Muito se tem dito a respeito da fragilidade das forças portuguesas, acusando-se amiúde o governo de Lisboa pelo suposto abandono a que votara as tropas. Contudo, os elementos hoje disponíveis oferecem um motivo diverso para explicar tal penúria. O Estado Maior Aliado desviara desde Março os comboios marítimos até aí destinados a municiar o CEP, colocando-os à disposição do exército norte-americano que então se preparava para participar no cenário europeu da guerra.

Às duas e meia da manhã daquela fatídica terça-feira de nove de Abril, quinhentas peças de artilharia alemãs iniciaram um bombardeamento cerrado sobre a linha da frente ocupada por duas divisões de infantaria portuguesa. A preparação durou cinco horas ininterruptas, tendo caído sobre as nossas posições cerca de 30.000 projécteis. O dilúvio de fogo foi sucedido por cerradas nuvens de gases tóxicos e, logo, por densas máscaras de fumos que permitiram à massa da infantaria alemã avançar com segurança sobre as trincheiras portuguesas. Combalidas, as forças portuguesas ofereceram a resistência possível, mas deram luta, atrasando por horas o plano alemão. Nesse longo dia, realizaram-se feitos de grande bravura. Então, o Zé Povinho que se fizera João Ninguém das trincheiras, deu mostras de tenacidade e heroísmo que salvou a honra da bandeira portuguesa e surpreendeu um inimigo altivo e militarmente superior em meios. Pelo final do dia, quando finalmente os portugueses recuaram, haviam perdido 327 oficiais e 7000 infantes, mortos, feridos ou desaparecidos.

Mas a sangreira ainda não terminara. No dia seguinte, o Quarto Exército do general Von Armin atacou o saliente de Ypres. Na planície de Lys, os 13º e 15º regimentos de infantaria portugueses agarraram-se a La Couture, defendendo ferozmente a aldeia ao lado dos escoceses. Apesar dessa vigorosa resistência, os alemães chegaram ao Lys no dia seguinte, atravessaram-no em grande parte e avançaram em direcção às colinas da Flandres.

Passam na próxima segunda feira cem anos sobre a chamada batalha de La Lys. No cemitério militar de Richebourg repousam 
1831 corpos de portugueses caídos no campo de honra. O cemitério, um verdadeiro altar da pátria, será visitado e homenageado pelo presidente francês que ali, solenemente, em nome do povo francês, agradecerá a Portugal a oferta em sangue dos seus jovens caídos na defesa da terra francesa. Honra, pois, aos nossos heróis.

MCB




DEUS - PÁTRIA - REI

segunda-feira, 9 de abril de 2018

A Alma e a Gente - Serpa Pinto, O Toque do Clarim

Marquês de Sá da Bandeira

O paradoxo da Páscoa e outros mistérios

Ao contrário das outras ressurreições de que nos falam os Evangelhos, a de Cristo não foi um mero regresso à existência anterior à morte.

Os relatos evangélicos relativos à ressurreição de Jesus Cristo escondem vários mistérios e, como escreveu Bento XVI em ‘Jesus de Nazaré’, um paradoxo.

O primeiro mistério respeita à própria ressurreição. Os soldados, que estavam de guarda ao sepulcro, não referiram nenhum acontecimento extraordinário ocorrido entre o encerramento do túmulo e a sua abertura, na madrugada do domingo, quando se descobriu que estava surpreendentemente vazio. As mulheres que, nessa manhã, se dirigiram para o sepulcro, não só não viram nenhuma ressurreição, como julgaram, como parecia óbvio, que o cadáver tinha sido roubado (Jo 20, 2).

Naquele mesmo primeiro dia da semana, Cristo aparece a Maria Madalena (Jo 20, 1-18); a Simão Pedro (Lc 24, 34); aos discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35); e, por último, aos apóstolos, já excluído Judas Iscariotes e faltando Tomé (Jo 20, 19-23). Todos o vêem, é certo, mas nenhum deles o viu ressuscitar e, por isso, mais do que testemunhas da ressurreição de Jesus, são só testemunhas do ressuscitado.

Um segundo mistério respeita ao momento em que aconteceu a ressurreição de Jesus de Nazaré, pois não se sabe ao certo quando foi. Supõe-se que ocorreu na madrugada do domingo, porque era o terceiro dia, tal como fora repetidas vezes profetizado.

Os cientistas forenses que estudaram o sudário de Turim – que não é objecto de fé, embora a Igreja, na medida em que é cientificamente credível, o venere como relíquia da paixão e morte de Cristo – envolveram em lençóis de linho puro, perfumados com mirra e aloés, cadáveres ensanguentados e observaram que “depois de 36 ou 40 horas de contacto (…) as imagens dos corpos ficaram impressas nos respectivos lençóis, mas muito longe da perfeição que a síndone apresenta”. Muito embora a precisão e permanência extraordinária da imagem do sudário de Turim leve a crer que a sua impressão se ficou a dever a causas transcendentes, é provável que o tempo de contacto do sudário com o corpo nele retratado tenha sido também de 36 horas, aproximadamente. Assim sendo, se Jesus foi sepultado pelas 18h de sexta-feira, a ressurreição teria acontecido por volta das 6h da madrugada do domingo seguinte.

Como em tantos outros episódios bíblicos, algumas aparições do ressuscitado são anunciadas por anjos. Aparecem às santas mulheres (Lc 24, 1-7), nomeadamente a Maria Madalena, que vê dois anjos sentados no sepulcro vazio, um à cabeceira e o outro aos pés de onde estivera o corpo de Jesus (Jo 20,12-13). É curiosa esta certeza de que eram anjos, porquanto devem ter aparecido com figura humana, como sempre acontece pois, em caso contrário, não poderiam ser facilmente vistos, nem ouvidos.

Embora Pedro tivesse sido confundido com o seu anjo (Act 12,15), ninguém crê que se lhe apareceu um anjo e não Jesus de Nazaré. Inicialmente, é certo, não é reconhecido por aqueles que, sendo os seus mais próximos discípulos, o conheciam muito bem, mas nunca ninguém o confundiu com um anjo. Quando Maria Madalena, estando à procura do seu Mestre e Senhor – que trata sempre com a veneração devida pela criatura ao Criador e nunca com intimidades de esposos ou amantes – o vê mas não o reconhece, pensa tratar-se do hortelão e não de um anjo (Jo 20, 14-16).

A misteriosa volatilidade da enigmática e vaporosa presença do ressuscitado – aparece no cenáculo estando fechadas as portas (Jo 20 19) – seria sinal de que ali estava apenas a sua alma e não o seu corpo?! Seria uma hipótese razoável, se não fossem as palavras e acções do próprio Cristo: “‘Olhai para as minhas mãos e os meus pés, porque sou eu mesmo; apalpai e vede, porque um espírito não tem carne, nem ossos, como vós vedes que eu tenho’. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas, estando eles, por causa da alegria, ainda sem querer acreditar e estupefactos, disse-lhes: ‘Tendes aqui alguma coisa que se coma?’ Eles apresentaram-lhe uma posta de peixe assado. Tendo-o tomado, comeu-o à vista deles” (Lc 24, 39-43).

Contudo, como é possível que os apóstolos, que já o tinham visto ressuscitado pelo menos duas vezes, e Pedro três, não sejam capazes de o identificar, nem sequer pela voz, quando ele, da margem, lhes diz que lancem as redes ao mar?! (Jo 21, 1-14).

Mais escandaloso é ainda o caso dos discípulos de Emaús que, falando longamente com ele sobre a sua própria paixão e morte, o não identificam durante toda aquela demorada conversa, que termina apenas ao fim do dia, quando finalmente o descobrem, na fracção do pão (Lc 24, 13-35). Estão com ele, a falar dele e não o reconhecem!

Ao contrário das outras ressurreições de que nos falam os Evangelhos – da filha de Jairo (Mt 9, 18-26), do filho da viúva de Naim (Lc 7, 11-17) e de Lázaro (Jo 11, 1-46) – a ressurreição de Cristo não foi um mero regresso à existência anterior à morte. Aqueles três ressuscitados voltaram a ser quem eram e como eram antes de morrer e, mais tarde, como quaisquer mortais, morreram. Mas não assim Cristo. Os apóstolos talvez pudessem ‘inventar’ uma ressurreição como as que Jesus tinha realizado diante deles, mas nunca poderiam imaginar que ele, ressuscitando, fosse verdadeiramente ele mesmo, sendo também totalmente diverso!

Jesus, ao ressuscitar, reassumiu a sua humanidade de uma forma completamente original. A sua natureza divina permaneceu imutável, mas a sua natureza humana era agora, visivelmente, muito diferente – daí a dificuldade do seu reconhecimento, até pelos seus mais próximos – mas sendo absolutamente ele: eis o paradoxo da Páscoa! É ele mesmo, mas de outro modo e, até, com outro aspecto: a mesma identidade, com o mesmo corpo ressuscitado, mas totalmente diferente. Mais do que um mero regresso à vida, Jesus Cristo, com a sua ressurreição, inaugurou uma nova vida, que é também para todos os que são salvos em seu nome.

P. Gonçalo Portocarrero de Almada

DEUS - PÁTRIA - REI