domingo, 9 de setembro de 2018

Uma rúpia portuguesa de 1882

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O Estado português da Índia foi criado em 1505 como um vice-reinado do Reino de Portugal. Dirigida por um Vice-rei ou um governador, a Índia portuguesa era verdadeiramente um Estado dentro do Estado português, e possuía vários atributos de soberania: cunhava moeda, fazia lei, decidia da paz e da guerra, assinava tratados, recebia e enviava embaixadas e exercia controlo territorial.



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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Nova Portugalidade - Um Valor de Futuro.

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Na era pós-industrial em que vivemos, os velhos princípios que regiam a alocação de recursos, a produção de bens e a divulgação de produto já não são suficientes. O mercado globalizado, mais do que nunca, impõe a organizações governamentais e não-governamentais novos desafios a que estes respondem com liberalidades, restrições, condicionalismos do mais variado tipo.
O valor da informação e da reputação, do contacto humano, da simbiose civilizacional, tornaram-se factores preponderantes. Pondo as coisas em pratos limpos, a conquista de uma quota de mercado depende, em grande parte, do nosso estatuto na batalha cultural. Um cultura influente impõe-se, responde, transacciona não, de forma unilateral, nos seus termos, mas em harmonia com os agentes envolvidos. E é especialmente no ponto dos afectos, da tradição familiar, do habitus social, mas também na peculiaridade dos seus produtos e do seu modo de vida, que a Portugalidade tem uma hipótese contra a política de consumo imposta pela hegemonia norte-americana.

Portugal tem emigrantes em 140 dos 150 países existentes. Dentro desses países constituíram-se comunidades de diferente peso - em França são 567 mil, em Espanha 136 mil, em Angola 17 mil, enquanto que nas ilhas Maurícias são só 50.
Dentro destas comunidades existe uma "zona de penumbra", como lhe chamam os analistas, que mais não é do que uma fonte quase inesgotável de integração e representação cultural - os luso-descendentes. Que esforço está a ser feito para os ligar à cultura mãe? Praticamente nenhum.
No caso brasileiro, julga-se que pelo menos 800 mil brasileiros vivam nos Estados Unidos e 254 mil no Japão. Essas comunidades trazem consigo a língua e um estilo de viver tropical, aproveitando outro tipo de recursos e com outras perspectivas profissionais e outros hábitos de consumo. O mesmo se passa com os emigrantes de outros países lusófonos - ou seja, um mundo de investimentos ligados por uma língua e por uma base cultural onde a diversidade não nos falta.
O mundo de falantes lusófonos aponta para 250 Milhões. E depois temos os crioulos portugueses, falados desde as Caraíbas até Timor. A seguir esse mapa de propagação da língua e de afluentes dessa língua, estão comunidades que, mesmo tendo esquecido os dizeres mais básicos, mantêm nomes portugueses ou uma memória do mundo lusófono, muitas vezes através de práticas religiosas, memória essa que usam para fins identitários, demarcando-se dos seus vizinhos.

No mundo de mercados globalizados, no mundo onde as comunidades, as empresas e os consumidores procuram fugir à homogeneidade galopante, ao produto massificado, a Portugalidade tem nas mãos duas habilitações únicas: espaço por onde criar uma reputação, espaço por onde colher informação. E falo em "espaço para fazer" porque essa reputação ainda não foi construída e essa informação ainda não foi aproveitada.
Ou seja, a Portugalidade não é um mero adereço - é uma fonte de riqueza por aproveitar. Um mercado criado por mais de 500 anos de emigração, activo pelo menos desde o século XII, que conta com o contributo não só dos que saíram de Portugal mas também do Brasil, de Macau, de Moçambique, da Índia. 

Um Valor de Futuro? Sim. Mas um Valor que não espera pela nossa boa vontade. Um Valor que não tem sido bem tratado e que corre sério risco de se degradar. Tal como todas as coisas boas da vida, merece o nosso cuidado, o nosso carinho, merece uma política com visão.


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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A destruição do Palácio da Ajuda

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Definitivamente liquidado o seu parente carioca, o que neste momento está a suceder na Ajuda, embora nem de longe possamos comparar com o desastre de ontem, merece contudo um rápido comentário. A adulteração arquitectónica do maior e mais conseguido edifício neoclássico de Lisboa, consiste num erro e num abuso de confiança. 

O erro consiste no querer mostrar obra seja da forma que for, nem sequer tomando em consideração a dignidade que aquele vasto conjunto mereceria num país com mais de oitocentos anos de história. Já tendo sido despojado de uma parte do seu espólio mercê de algumas vicissitudes quando nele se encerrou a vigência da mais longeva e significativa forma de representação do Estado português - precisamente aquela que o fundou, consolidou, expandiu e espalhou o nome Portugal de Ceuta a Nagasáqui -, esteve longas décadas fechado, mantendo longe da vista de nacionais ou turistas estrangeiros, preciosidades que no seu conjunto oferecem uma visão muito consistente dos interiores palacianos do século XIX, para além de conter algum mobiliário que sendo anterior, pode ser facilmente identificado como tendo participado em alguns eventos bem conhecidos. Cabe neste âmbito, por exemplo, o conjunto de cadeirões que terão adornado os aposentos do Príncipe Regente na nau que levou a bom e seguro porto, a sede da soberania portuguesa para a sua então enorme possessão ultramarina além-Atlântico.
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Nem sequer dando especial destaque a trágicos episódios como o estranhamente escabroso roubo das Jóias da Coroa, sabe-se que durante a 2ª república o regime retirou algumas peças que foram decorar embaixadas portuguesas, numa atitude consentânea com a tradicional displicência com que as nossas autoridades tratam o património que é de todos, mesmo daqueles que o desconhecem. 
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Hoje o espaço conta com uma direcção-conservadoria que para além de uma rotineira carência de verbas, tudo tem feito para o prestigiar, embora o entorno mantenha aquele típico aspecto de semi-abandono que mesmo visivelmente reconhecido como tal, ainda oferece cenários de que o regime das auto-estradas e dos centros comericiais se aproveita para as suas ocasiões especiais onde se alaparda numa grandeza postiça, que nunca teve. Vivemos tempos de mero exibicionismo e como tal deve ser entendido o acrescento que está a erguer-se a poente, onde o projecto cada vez mais nos fará lembrar um enorme radiador para dias invernosos, ou aquele poste que desde logo chama a atenção do ocasional canídeo que no seu giro higiénico, ali deixa a sua mensagem molhada para que outros a farejem. Muitas formas há de destruir um edifício, especialmente se este fizer parte da história. A adulteração arquitectónica é uma delas, talvez a pior de todas, um abuso de confiança.

Mentem, mentem e mentem, mesmo que isso signifique o esbanjar de milhões que irão buscar aos bolsos habituais, sejam eles portugueses ou de visitantes estrangeiros e neste último caso, as famosas taxas e taxinhas. Uma anunciada despesa de dúzia e meia de milhões para uma enorme fachada a forrar com pedra, vidraria, três ou quatro andares, sistemas de segurança anti-roubo e contra incêndios, iluminação, dois cofres-fortes que protegerão o que resta das peças de joalharia e a prataria outrora de serviço à Casa Real, elevadores e monta-cargas, o que quiserem imaginar. Tudo como se fosse adquirido na loja chinesa do bairro, ao preço de mega-saldo. Isto para nem sequer abordarmos o pagamento devido à mão de obra especializada para as mais diversas tarefas a executar.

Quem acredita nisto? Dois tipos de pessoas: os tolos e os arregimentados participantes ou não em esquemas mais ou menos nebulosos.

  Nuno Castelo-Branco


Fonte: Estado Sentido

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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

COMUNICADO: O I mente outra vez; o I terá de repor a Verdade

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I. No artigo «Portugal. Extrema-direita segue tendência europeia e reorganiza-se», publicado a 3 de Setembro, o «Jornal I» esforça-se por simular relação ou associação entre a Nova Portugalidade e diversos grupos extremistas, entre os quais um tal «Portugueses Primeiro», uma «Nova Ordem Social» e uma sinistramente chamada «Divisão Misantrópica». O texto é manipulado expressamente de modo a ludibriar o leitor, toldar o seu julgamento e ferir com gravidade o bom nome da Nova Portugalidade e seus dirigentes, membros, simpatizantes e animadores. Para o lançamento de tão graves acusações, nunca o Jornal I procurou contactar a Nova Portugalidade e seus responsáveis, informar-se a respeito dos propósitos que a animam ou ler os documentos, Estatutos ou Carta de Princípios, que fornecem base à sua actuação. Se este é o jornalismo do I, não podemos se não perguntar-nos se o I merece ser tido por jornal.

II. Não é a primeira vez que o Jornal I difama gratuitamente a Nova Portugalidade. Em Março de 2017, artigo assinado no I por Ana Petronilho procedia, pelo corte de frases e corrupção do seu sentido, a grosseira manipulação da mundivisão do presidente da Comissão Executiva da NP, Rafael Pinto Borges. Desta vez, o indecoroso ataque é assinado por Ricardo Cabral Fernandes, «jornalista» que não faz segredo do seu sectarismo político: para além de ser colaborador do Esquerda.net, site oficial do «Bloco de Esquerda», Cabral Fernandes exibe como capa no seu perfil de Facebook propaganda de diversos movimentos de extrema-esquerda, entre os quais o «Partido dos Trabalhadores do Curdistão», considerado organização terrorista pelos Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha ou a Turquia, e o também violento «Exército Zapatista de Libertação Nacional» da Nicarágua, responsável pela morte de centenas de inocentes ao longo dos anos. De que não é imparcial, não há dúvida; de que ignora as mais elementares regras da ética jornalística, também não. É a todos os títulos lamentável que seja esta a bússola deontológica - como vimos, sem norte e sem ponteiro - por que se rege o I. Sabendo como sabemos que não é a primeira vez que algo desta gravidade se dá com o referido jornal, não podemos ficar com interpretação outra que a que se apresenta evidente: que o dito organismo move uma perseguição à Nova Portugalidade, e que usa da capacidade de divulgação de que ainda dispõe para a disseminação de factos falsos e violadores do direito, aliás legalmente tutelado, à reputação e ao bom nome.

III. A Nova Portugalidade não tem, teve, ou terá a menor similaridade ou motivo de aproximação aos diversos grupos de extremistas referidos no artigo de 3 de Setembro. Todas as agremiações ali apresentadas, algumas feridas inclusivamente de passivo criminal, estão nos antípodas do patriotismo aberto, universalista, humano e anti-racista que a NP defende e continuará a propor. Compomo-nos de professores universitários, politólogos, juristas, arquitectos, estudantes e servidores do Estado; temos entre nós indivíduos de «esquerda» e outros de «direita»; não professamos qualquer doutrina; desenvolvemos um labor historiográfico inovador e defendemos, certamente com um sucesso que incomoda aqueles que são adversários nossos e de Portugal, as grandes marcas da nossa civilização e a riqueza cultural que liga aos portugueses povos de todas as partes do globo. Desafia o bom senso que um jornal, ainda que um tão decadente e pouco lido quanto é o I, pretenda associar a grupúsculos uma organização que congrega para iniciativas suas nomes como o Senhor Dom Duarte de Bragança, a Doutora Ana Isabel Líbano Monteiro, os ex-deputados Professor Pedro Quartin Graça e Dr. Raul Almeida, o Doutor José Norton, o Professor Pedro Dias ou a Professora Maria de Deus Manso. Tão descarado abuso - como vimos, repetido e, por isso, certamente premeditado - só pode ter a motivá-lo o que há pouco se detectava: uma perseguição amoralmente conduzida por «jornalistas» ideologicamente marcados e desinteressados das mais elementares leis da sua profissão.

IV. Para a Nova Portugalidade, o direito à informação honesta e ao bom nome é indispensável a qualquer sociedade realmente democrática. É em nome desses princípios, estabelecidos pela Constituição da República e essenciais à vida colectiva, que a Nova Portugalidade se baterá sempre e usando de todos os meios oferecidos pela Lei. Não o fazemos por nós, pois eles não são só nossos e não é só a nós que protegem; fazemo-lo por todos os portugueses em defesa das garantias que a todos protegem. Travaremos a boa luta pelo que é justo e verdadeiro. 

A 4 de Setembro de 2018, a Comissão Executiva da Nova Portugalidade


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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Umas Termópilas na China, em 1647 Os 300 de Macau

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Por razões que estimamos absurdas e conflitantes com o labor historiográfico, muito poucos estudos têm sido dedicados aos soldados da fortuna portugueses que batalharam no Oriente entre os séculos XVI e XVII, emprestando o seu saber militar a governantes asiáticos. O estatuto do mercenário - hoje desconsiderado - era então um ofício como qualquer outro. As guerras do renascimento e as dos início da Idade Moderna eram travadas, senão maioritariamente, pelo menos significativamente por homens pagos para os trabalhos de Marte. 

Mercenários portugueses havia que serviam os reis birmaneses contra os reis do Sião, como os havia nos exércitos siameses nas guerras com os birmaneses. Soldados da fortuna portugueses serviam também nas fileiras dos exércitos muçulmanos do império Mogol (Índia), na infantaria do reino hindu de Vijayanagar e nos pequenos estados que debruavam o Golfo de Bengala. 

Conheci há tempos um investigador escocês que prepara uma obra sobre a participação de mercenários portugueses na guerra que opôs os últimos Ming chineses à nova dinastia Manchu (1644-1911). Não lhe consegui indicar material de arquivo relevante, pois na Torre do Tombo são parcas as referências a tal envolvimento. Limitei-me a recomendar-lhe o clássico de Charles Boxer, Expedições militares portuguesas em auxílio Mings contra os Manchus, 1621-1647.

O que sabemos, contudo, é que em 1646, as autoridades de Macau foram pressionadas para colaborarem na guerra que Zhu Youlang - o último Ming - travava com os Manchus invasores. Estes haviam tomado Pequim e Nanquim e a guerra deslocara-se para o sul do Império do Meio. Estava-se na última fase de uma guerra que surgia como antecipadamente perdida para os partidários da dinastia em ocaso. Em Janeiro de 1647, Cantão, a grande cidade do sul caia e o exército Ming retirou para Kweilin, capital da vizinha província de Kwangsi. 

Em Macau formou-se um inteiro regimento de arcabuzeiros, formado por filhos da terra (macaenses), por reinóis (gente do Portugal europeu) e muitos escravos negros. Eram 300, como os guerreiros que Esparta enviou para as Termópilas. Em Kweilin, o comando não era de Leónidas, mas de um certo Nicolau Ferreira, sobre quem pesa um denso mistério. 

Assim que chegados a Kwelin, dedicaram-se os mercenários a afanosos trabalhos de engenharia: trincheiras, redutos, parapeitos, reforço de muros, encharcamento de terrenos e armadilhas ocuparam-nos durante quase três meses até que, em meados de Abril, um enorme exército inimigo se aproximou da cidade. Excessivamente confiante, o comandante manchu ordenou um ataque inopinado. Os arcabuzes e a artilharia dos portugueses causaram enormes estragos na massa da infantaria tártara, obrigando-a a recuar. Depois, durante meses, vagas de assaltos foram lançados sobre a cidade, e todas repelidas. A resistência de Kweiling arrastou-se até 1648 quando, esgotadas a pólvora e as munições e muito dizimados, os mercenários sobreviventes regressaram a Macau, furtando-se represálias. 

MCB

Nova Portugalidade

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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Do Império Português


A Casa portuguesa, este velho solar português feito pela espada dos Reis nos campos de batalha, pela sua astúcia nas conferências diplomáticas, e pelo sangue generoso e o sacrifício ilimitado dos que, dentro dos seus limites nasceram, e, vassalos daqueles Reis se orgulharam de ser, este velho solar português deita, pelas bandas do Oriente e do Norte, para os solares de Espanha.
Disputaram, uns e outros, durante três séculos. Portugal acabou, finalmente, por convencer os vizinhos, da sua personalidade, e trancou as portas e as janelas da sua casa que davam para as terras do vizinho, e, seguro de que este não poderia facilmente assaltar-lhe as janelas e arrombar-lhe as portas, voltou-se para o mar misterioso e nebuloso, de trilhos ignorados ou esquecidos, de praias desconhecidas, e de limites quiméricos. Voltou-se para o mar; e firmando-se na tensão profunda que constituía fundamentalmente o seu querer viver, afirmou essa vontade na mais tenaz, na mais inteligente, na mais bela das realizações.
Debruçado, no Promontório de Sagres, sobre o mar infinito, estudando, na sua casa de Sagres, com nautas, astrólogos e cartógrafos, os segredos do Espaço, o Infante traçava os primeiros delineamentos decisivos do novo Império cristão. Ele corporizava as aspirações latentes do seu povo, que já fora a Ceuta desfraldar, nas muralhas dos infiéis, o estandarte da Cruz!
Ia gravada nas velas das nossas caravelas, ela que já andava nos dinheiros do tempo do nosso D. Sancho I.
Nos padrões que os nossos navegadores e descobridores implantavam, a marcar o nosso direito e a nossa posse, era ela que se alçava a dominá-los. E foi ela que um dos maiores Reis da nossa história escolheu para a sua empresa – com a legenda: in hoc signo vinces.
Se tirarmos ao Imperialismo português a sua característica cristã – tudo se torna incompreensível na acção imperialista dos portugueses de 1400 e 1500.
Nós não nos abalançámos à realização da Epopeia – como os corsários franceses, como os piratas ingleses, por apetite do roubo. Não nos deitámos a realizar a Epopeia marítima, por despeito, como os navegadores de Castela. Não foi Cartago, não foram os romanos, os nossos modelos, os nossos mestres. Não!
No continente, durante os três séculos de consolidação política, se fomos, em face de Castela recalcitrante, portugueses ciosos da nossa honra, do nosso nome, e da nossa independência – quero dizer, da honra, do nome e da independência dos nossos reis, fomos também cruzados cristãos, perante a afronta da mourama.
Cruzados fomos, e cruzados continuamos a ser, em África, em Índia, em América, em Oceânia – porque o que primacialmente nos levou às paragens mais remotas, e nos sujeitou aos riscos mais graves, foi o sentimento cristão.
Mas muito se engana quem vê na nossa acção de cruzados, jeitos de anunciação de foot-ball, de golf, ou de pedestrianismo cristão.
Fomos cruzados, para servir a Fé. E foi para a servir, que fizemos o Império – o Império cristão que ninguém mais fez.
Quando o Infante, em Sagres, continuando a obra que, meio século antes, D. Afonso IV semeara, viu o caminho para a Índia, e na consciência plena da sua vontade, procurando-o, guiou o povo português para essa meta de glórias, era a mais exaltada fé católica que o inspirava, e se tornava de ser de toda a sua vida.
Civilização essencialmente cristã, a civilização portuguesa tinha uma força estimulante interna, uma ideia-força que vencia e venceu todos os obstáculos: a propagação da fé católica.
Só o nega quem ignora ou finge desconhecer os documentos.
Entre tantos, oiçamos este testemunho bem de valor: é de Francisco de Almeida, o cronista do mais deslealmente caluniado dos nossos reis: «Mas como o principal fruyto que os Reis deste reyno pretenderão, e desejarão sempre nas terras que desubrião e conquistavão de novo, foy a conversão dos infieis, e a dilatação e acrecentamento da nossa santa fé catholica isto fez a el Rey dom João pôr os olhos com mais atenção na povoação do Brasil...» (IVª parte, cap. 32).
Só por milagre quase inacessível às inteligências de hoje, paganizadas, obscurecidas, decrépitas, só por milagre se pode explicar que um povo minúsculo – meia mão de gente! – tivesse sido capaz de estender o seu domínio, o seu Império, sobre milhões e milhões de almas de todas as raças, de todos os tons psíquicos, espalhadas pelas mais longínquas terras.
Em África, primeiro, em Ásia, em América, em Oceânia – por todo o orbe, a Cruz de Cristo portuguesa se instalou dominadora, e venceu todas as batalhas que lhe deram.
Império tão vasto, que o Poeta pode dizer dele, dirigindo-se a D. Sebastião, que era um «alto Império» que

O sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisphério,
E, quando dece, o deixa derradeiro.
(I, 8)

O Império português é um milagre de Deus!
Porque pudemos realizá-lo? Porque conseguimos levá-lo a termo, no espaço relativamente curto de século e meio?
Primeiro, porque acreditávamos na nossa missão – na nossa missão de cruzados, de dianteiros da Fé, de soldados de Deus. E a primeira condição para se poder realizar bem uma obra consiste em acreditarmos em nós, e nela. Acreditar que somos capazes de a fazer, e acreditar em que ela tem de se realizar. Os portugueses dos séculos dos Descobrimentos acreditavam na verdade católica – morrendo por ela, sob os golpes dos alfanges, nas muralhas de Diu, ou nas praias da América. Acreditavam em Deus, porque não os tocara ainda a malária da Dúvida racionalista, e a lepra calcinante do Livre Pensamento.
Acreditavam em que eram portadores da Verdade – daquela Verdade impassível ante todos os ataques, e invulnerável diante de todos os ultrajes. Acreditavam em que eram portadores do verbo divino, por amor do qual a morte é gloriosa, e todo o sofrimento é prazer.
Eram raros viçosos daquela árvore de maravilhas que se chamou Nun'Álvares; eram filhos obedientes daquela Mãe transumana que se chama Igreja Católica.
O ideal supremo que os guiava não era o tirar aos outros o que os outros tinham; nem rasoirar os valores; nem ombrear com a divindade: o seu ideal supremo era servir e amar a Deus. E todos serviam e amavam a Deus, desde os reis, nos paços, aos camponeses da serra lavradia; desde os pastores das serras agrestes, aos nautas destemidos, desde Camões, poeta de génio, a Albuquerque, guerreiro de raça.
Andava longe a Reforma bastarda; e quando se aproximou, – previdente, oportuno, e cumpridor dos seus deveres, D. João III opôs-lhe uma milícia – a Companhia, e um cordão sanitário, esplêndido, para o tempo – a Inquisição.
Ainda não se pressentiam os rumores da Revolução sangrenta das sarjetas e prostíbulos, a cujo serviço se puseram os sábios da Enciclopédia, e as elegantes mièvres dos salões de Paris, e das ante-câmaras de Versalhes...
Tudo isso vinha longe – e o solar português, rezando, ao anoitecer, as Ave-Marias das Trindades, e fazendo o sinal da cruz, ao surgir da alvorada, cria em Deus, e servia Deus. Se era forte e puro na sua fé, era forte e leal na sua vida cívica. Os seus reis foram sempre paternais na justiça, justiceiros no prémio ou na pena. E o povo a quem as loucuras do homem despolarizado não tinham proclamado ainda soberano, o povo que ignorava o poder bruxo dos papelinhos do voto, na governação do Estado – o povo unia-se à volta do seu chefe natural, daquele que não saíra das tropelias e malabarices de uma urna, mas viera dos desígnios impenetráveis da Providência, para mandar, e ser obedecido, para guiar, e ser respeitado.
O povo português dos Descobrimentos, o povo português que fez o Império desconhecia os génios miríficos que as plebes geram, no tumulto das arruaças, e no rascante voejar dos impropérios. Todo ele era uma família – unânime na crença religiosa, homogénea no sentimento de obediência.
Ignorava a panaceia mórbida dos Direitos, porque vivia dentro do quadrado firme dos Deveres.

Alfredo Pimenta in «O Império Colonial como factor de Civilização», 1936.

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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

VASCO LOURENÇO E A CRETINICE ESFÉRICA

“O principal dever de um soldado não é morrer pela sua Pátria. É fazer com que o (…) do soldado inimigo morra pela Pátria dele”.
General George Patton

            Houve em tempos já recuados, um capitão instrutor na Academia Militar, cujo nome não interessa, que era conhecido pelo “cretino esférico”.
            A razão era simples, dizia-se: é que de qualquer ângulo que se olhasse para ele, era sempre cretino.
            O arrazoado vem a propósito de uma escrevinhação do cidadão Vasco Lourenço (VL), em tempos “Conselheiro da Revolução” (uma cretinice esférica de “revolução”, diga-se em abono da verdade), que deu à estampa no Jornal “Público” - um actual quase feudo do Bloco Canhoto - sob o título “A Guerra Colonial ainda não acabou?”, no pretérito 19 de Julho.
            No meio de tiros de pólvora seca, pelos vistos os únicos que sabe disparar, e tiradas ocas condizentes com a esfericidade dos termos exalados por este ser - que, seguramente, entrou na Academia Militar por engano e por engano saiu de lá, formado em Infantaria - veio atacar os combatentes que cumpriram o seu dever para com a sua Pátria e ofender gratuitamente o oficial do Exército Português vivo, mais condecorado, pelo facto de o Exército pretender promovê-lo a Major.
            Trata-se do Capitão Comando Marcelino da Mata, graduado em Tenente-Coronel.
            Este combatente de excepção pertenceu ao Batalhão de Comandos, criado no teatro operacional da Guiné Portuguesa, durante o último conflito ultramarino em que a Nação dos portugueses foi atacada vilmente, na sua essência cultural, soberana e pluricontinental, a que o cidadão em causa apelidou de “guerra colonial”.
            De facto - e fazendo jus, ao título do seu artigo – esta guerra não acabou, nem vai acabar pela simples razão que não existiu…
            O texto de VL é, todo ele, miserável e só demonstra a sua má formação.
            O que terá levado este ser aparentemente ressabiado, que só uma situação revolucionária permitiu a sua promoção a coronel, dada a sua medíocre folha de serviços, a atacar um militar que se revelou um guerreiro indómito, que participou em mais de 2000 operações de combate (mais propriamente 2412!), durante mais de 10 anos, a quem o Exército e o País devem numerosos e relevantes serviços – apesar de nunca ter cursado uma Escola Superior Militar – e a opôr-se a que ele seja promovido a Major, quando tal injustiça já há muito devia ter sido reparada?
            Mas como é que este ser, difícil de adjectivar, tem o topete de escrever publicamente uma alarvidade destas?
            Quem é que se julga?
            Acusa-o de crimes de guerra? Quais? Tem provas?
            E não sabe que só aos tribunais cabe decidir sobre tal?
            De facto não é como aleivosamente escreveu (e o jornal deu destaque) que “a promoção de Marcelino da Mata, a existir, constitui uma enorme vergonha para o Portugal de Abril”; o Portugal de Abril é que tem sido uma vergonha para um herói que, pelos vistos, o único erro que cometeu foi o de, sendo negro, ter sobressaído no Exército Português!
            Ou, inclusive, já se esqueceu das sevícias a que foi sujeito, no antigo RALIS, por outras vergonhas de oficiais – lustrosos nas suas promoções – nos idos do PREC?
            Curiosamente nunca se ouviu o “ilustre abrileiro”, insurgir-se contra a vergonha do decreto-lei 43/99 (e muitos outros de semelhante coturno), conhecido na gíria, pela “Lei dos Garimpeiros”, que previa a reconstituição das carreiras dos militares (oficiais e sargentos do Quadro Permanente), que tivessem tido as suas carreiras eventualmente prejudicadas por via do tal processo revolucionário e que tem constituído (parece que ainda não acabou) um escândalo inominável, que vai manchar a Instituição Militar para todo o sempre…
            E este “iluminado” ainda teve o despautério de apelidar de “assassinos” os participantes na operação “Mar Verde” – um “raid” sobre Conacri, em 22 de Novembro de 1970 – nunca assumido oficialmente (e bem) pelas autoridades portuguesas até hoje, em que Marcelino da Mata foi um dos principais executantes (em que se libertaram 26 prisioneiros portugueses).
            Lembra-se que este “golpe de mão” foi comandado pelo já lendário Comandante Alpoim Calvão – outro verdadeiro guerreiro luso que não deslustrou as armas portuguesas, como os da laia de VL – e que poderia ter acabado com a guerra na Guiné caso tivesse alcançado todos os seus objectivos.
            Então os “guerrilheiros” tinham os seus santuários (bases) e apoios na República da Guiné - Conacri, cujo regime representava uma feroz ditadura comunista, e o seu presidente era um louco sanguinário, e de onde partiam os cobardes ataques contra uma parcela do nosso território, que nunca lhes tinha feito sequer má vizinhança, e nós não tínhamos a legitimidade de nos defendermos e de retaliar?
            Por acaso ignora que a legítima defesa é um dos princípios base do Direito Internacional (e também da Doutrina da Igreja)?
            E diz que a guerra era injusta?
            Afinal jurou bandeira no Exército Português ou pertencia ao PAIGC?
            Olhe, não se tem esquecido de tomar os seus comprimidos diariamente?
            E deixe-me perguntar-lhe, se acha, como afirma no final do escrito, que “todas as guerras são inúteis, ilegítimas e injustificadas”, o que foi que o fez entrar como voluntário para a Academia Militar e ainda hoje ser reformado do Exército com “n” anos de serviço activo?
            Já sei, foi o regime “colonial/fascista” que o perseguiu, quiçá, obrigou e lhe toldou o espírito e a mente…
            Para viver com um mínimo de coerência porque não pede o abate ao Exército e já agora, também, à Caixa Geral de Aposentações?
             O tempora o mores! Pá…




                                     João José Brandão Ferreira
                                          Oficial Piloto Aviador

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