sábado, 4 de abril de 2020

O culto da bandeira portuguesa pelo povo timorense

A imagem pode conter: 2 pessoas, interiores

Quando, em 1514 os primeiros portugueses aportaram à ilha, deparam-se com uma cultura característica da Idade do Ferro, desconhecedora da roda e tendo como religião um vago culto dos antepassados, com práticas xamânicas centradas no cuidado com amuletos e sacrifício de animais com que se pretendia alimentar a alma dos mortos e conceder-lhes a eternidade.


A presença portuguesa começou no primeiro quartel do século XVI com a chegada de comerciantes interessados na madeira de sândalo, produto muito cobiçado no Oriente, mas logo seguidos por missionários. Só em 1703 foi nomeado o primeiro governador português para a Ilha, posto que a presença de autoridades da Coroa se limitara durante dois séculos a um Capitão de Lifau (primeira sede do poder português), o qual mantinha relações com os chefes tribais (liurai) praticamente soberanos. Com a nomeação de um capitão de praça, o poder passou a ser exercido a partir de Dili, mas sempre apoiado num pacto de vassalagem por todos os régulos. O elemento desse vínculo materializou-se na bandeira - símbolo efectivo e de valor totémico comprovativo da pertença a uma entidade política grande. Os timorenses, fruto da sua cultura religiosa, valorizam muito os símbolos - totens - pelo que entenderam a bandeira portuguesa como um objecto sagrado, símbolo de um grande Rei que lhes conferia prestígio e segurança. Cada régulo da ilha tinha uma bandeira portuguesa, e em cada povoado esta impunha-se como expressão de vassalidade ao Rei de Portugal.


Foi no culto da bandeira que se unificou uma ilha que é, ainda hoje, complexo mosaico multi-linguístico e multi-étnico. Durante as constantes guerrilhas com os holandeses que ocupavam a parte ocidental da ilha, os timorenses construíram uma identidade colectiva - um nós timorenses, leais vassalos do Rei de Portugal - face a um inimigo comum. Os laços foram reforçados pela integração de poucas dezenas de portugueses chegados dos antípodas, e com o passar das gerações produziu-se uma amizade inabalável. Maior prova dessa amizade temos - se não for quando recebemos um caloroso abraço de um timorense, como eu já recebi - quando confrontados com o seguinte excerto de Luís Filipe Thomaz, certamente o maior orientalista português vivo e cujo conhecimento empírico da realidade timorense se ficou a dever ao facto de ali ter cumprido o serviço militar, mas também ali ter exercido ao longo de anos funções de jornalista e professor de latim e grego no Seminário Diocesano de Dare. Thomaz estudou aquelas gentes e foi testemunha de gestos tão genuínos patriotismo que, ao escrever De Ceuta a Timor”(1994), afirma:
“A bandeira portuguesa é guardada nas uma-lúlic (em tétum “casa sagrada”), como todos os objectos sagrados, é, quando hasteada, considerada intangível, constituindo infracção quase sacrílega pisar-lhe quando muito a sombra. Durante a ocupação japonesa numerosos chefes, coagidos a entregar as bandeiras às forças ocupantes, preferiram queimá-las e ingerir em seguida as cinzas, como que em comunhão ritual.” Não é, pois, uma estória inventada por um nacionalismo exacerbado, mas a prova de um sentimento. Da ocupação brutal de Timor pelos japoneses (1942-45) resultaram muitas vítimas, verdadeiros mártires da Pátria, sendo que o mais famoso foi Dom Aleixo Corte-Real. Entre 1975 e 2002, aquele povo foi de novo invadido, desta vez pelos indonésios. Ao longo de décadas de resistência alimentada pela sua consciência portuguesa austral, pela língua e pelo catolicismo, os timorenses mostraram-se admiráveis de bravura, pelo que Timor é uma lição de patriotismo. A Timor toda a nossa admiração e respeito, em alma e coração!

Tomás Severino Bravo

Fonte: Nova Portugalidade


Sem comentários:

Enviar um comentário