terça-feira, 25 de novembro de 2014

Dia 104 - Do asco


Bem tentou a carteira impedir-me por todos os meios de escrever esta crónica. Usou de argumentação científica, literária, abusou de golpes baixos, enfim, o costume. Que já todos escreveram sobre o mesmo, que é repetitivo, que nunca terás a força de um verdadeiro escritor, que não conseguirás atingir as almas.

Não sei. Não quero saber. Sai-me das entranhas, esta. Das más. Aquelas que nos viram as tripas. Que nos nauseiam e nos tiram o sono. A alguns, claro, e tenho a pouca sorte de ser um deles. Deixei de ver televisão, mas sempre me chegam notícias pela Internet e sinto asco, asco e mais asco. As náuseas que não tive na gravidez. Deve ser castigo.

Há anos que vemos, lemos e sabemos das promíscuas vizinhanças, ou melhor, da partilha de cama e mesa (com roupa lavada) entre poderes económicos e políticos e das amancebações (não existe a palavra, paciência, inventei) com empresas de advogados. Sem pudores nem remorsos.

Tudo tem um preço e cada vez mais baixo. Não existe país, não existe Nação, não existe Língua, existe uma oportunidade de negócio. A prostituição de uma Pátria. Vendem-se os pais, os avós, a língua, a terra, o património, a História a troco de um passaporte, um prato de lentilhas, um honoris causa, uma condecoração. 

Honras a quem traiu, vendeu, sabujou, calou. Calúnias a quem resiste. Chegamos a pensar que estamos sós, que estamos doidos, apontam-nos como ultrapassados por não percebermos a utilidade (traduza-se por dinheiro nos bolsos) da coisa. Estranham não cedermos ao marketingbem delineado da pertença a um qualquer suposto bem maior.

Roubar, mentir, vender-se, vender outrem, vender património ao deus-dará, delapidá-lo, descaracterizá-lo, cometer genocídio de todos quantos vivem fora do centro do poder, passaram a ser os mandamentos deste mundo a que não quero pertencer.

O asco não se resume a este canto. É vírus bem mais potente que qualquer Ébola. Assistimos a igual ou parecido (embora pareça sempre pior aqui, porque nem a justiça funciona) por todo o Mundo. 

A guerra, a corrupção, a violência, a violência gratuita, os negócios com a guerra, os negócios com as riquezas das Nações dos outros, as perseguições, os abjectos usos de crianças nas podridões de sociedades sem consciência.

Passei a vida a dizer à filha “com o mal dos outros posso eu bem”, ou “se X se atirasse a um poço também se atirava?”… a propósito do eterno argumento infantil de que os outros também fazem, ou podem, ou fosse o que fosse. Mantenho o argumento. Gosto de dormir tranquila. Infelizmente, dormir tranquilo, para muitos, é dormir abraçadinho à ganância e tomar o pequeno-almoço com ela, porque pagou.

Assusta. Conseguimos antever um futuro, não o que desejámos, mas o imposto por obscuros tempos. Uma coutada de alguém. Em rigor, negamos, mas até já somos.

Pensei em fugir. Ir para outro canto, bem longe. Mas este canto é também meu, foi dos meus, herdei deles uma visão muito própria do que somos. Porque hei-de fugir? Porque não ficar e resistir? Porque não acreditar que somos mais do que marionetas?

O melhor comprimido para a náusea provocada pelo asco são os pequenos momentos, no dia-a-dia, que nos fazem acreditar haver ainda gente boa e sã, apesar da visão diariamente imposta de inúmeras montanhas que nos atrofiam e nos parecem inultrapassáveis.

Nem que seja por um. Portugal tem oitocentos e setenta e um anos. Só precisa de quem o continue a amar. Um amor vindo das entranhas. Das boas.



Leonor Martins de Carvalho


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